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A corrida do ouro

14 de dez. de 2021
10 min de leitura

Olá. Antes de começarmos, vamos aos recados paroquiais:


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Forças envolvidas na Precificação do Ouro


- Oferta e Demanda

Bom, todo mercado onde há indivíduos querendo comprar algo e outros indivíduos vendendo essa mesma coisa está sujeito à Lei da Oferta e Demanda. Quanto maior a demanda (inversamente, quanto menor a oferta), maior o preço da mercadoria. Então, para identificarmos para onde essa força está pressionando o preço, precisamos entender a quantidade de ouro demandada e ofertada no mercado, e como essa quantidade vem se alterando ao longo dos anos.


A partir do site Gold Hub do World Gold Council, podemos ver exatamente esses dois valores. Vamos considerar no gráfico de Oferta somente a categoria de "Mine Production", que, de acordo com a documentação dessa organização, é o fator que mais influencia a quantidade de ouro disponível no mercado.

Produção Mundial de Ouro. Fonte: World Gold Council
Demanda Mundial por Ouro. Fonte: World Gold Council

Parece que, nos últimos dois ou três anos, tanto a demanda quanto a oferta tem diminuído. Porém, em 2020, foi-se produzido 3473 toneladas de ouro, enquanto a demanda foi de 3731 toneladas. Também é claro o movimento desde 2011 de redução na demanda total de ouro alinhado com o aumento na produção até 2018 com reduções em 2019 e 2020.


É interessante quando vemos dados econômicos também realizarmos nossas próprias análises, por exemplo, vamos subtrair toda a demanda da produção, para entender quanto ouro está "sobrando" no mercado. Lembre-se que esse remanescente pode estar "escondido" nos estoques das mineradoras.


As barras desse gráfico mostram a diferença entre a oferta e a demanda de ouro e devem ser lidas como "Para que exista o equilíbrio perfeito entre oferta e demanda, seria necessário extrair mais X toneladas de ouro para corresponder à demanda"

Temos claramente uma redução, provavelmente por causa do Covid, na demanda de ouro, ao passo que a produção manteve-se praticamente constante. Podemos ver também que, ao longo dos últimos 10 anos, a diferença entre oferta e demanda vem caindo, motivada primariamente por uma redução na demanda, que, principalmente em 2020, pode ser explicada por uma redução grande na quantidade de ouro destinado à joias (veja o link para o mesmo gráfico e dê uma brincada com ele).


A produção de joias é, baseado nesses dados, responsável pela maior parte da demanda por ouro e o consumo de joias é intimamente (para não dizer diretamente) ligado com a renda das pessoas, no sentido de que, quanto maior a renda, maior a parte da receita familiar disponível para o consumo de joias. Com isso em mente, para entendermos como será a demanda por joias daqui pra frente, vamos ver algumas projeções para o PIB mundial nos próximos anos.

PIB Mundial Projetado até 2023Q4. Fonte: OECD. 2019Q4 = 100 pontos

A OECD estima um crescimento do PIB na ordem de 2,5% ao ano, então, podemos deduzir a partir dessas informações que o consumo de joias tende a crescer também nos próximos anos, já que o aumento do PIB é fortemente correlacionado com o aumento da renda familiar (quantas correlações hein? Lembre-se de uma coisa: correlação não é causalidade).


- Bancos Centrais

Bancos Centrais usam ouro como uma forma de proteção contra, pasmem, o dólar. O dólar americano já perdeu algo em torno de 90% do seu poder de compra desde sua criação, ao passo que o ouro continua sendo globalmente aceito, praticamente indestrutível e ao mesmo tempo extremamente divisível, além de ser escasso e ter alguma utilidade. Bancos Centrais usam o ouro para garantir que parte de suas reservas monetárias não terão seu poder de compra corroído quando uma ou outra moeda sofre uma ação inflacionária, dessa forma, preservando o poder do Banco Central de intervir na economia através de compra de ativos e títulos públicos.


Podemos ver que, desde 2016, os Bancos Centrais vem comprando, literalmente, toneladas e toneladas de ouro, como formas de fortalecer seus balanços a frente da festa de emissão de dívida e moeda que vários países fizeram nesses últimos anos. E daqui pra frente? Bom, vamos nos próximos anos verificar um aumento nas taxas básicas de juros de economias desenvolvidas e, principalmente, nos EUA, o que vai levar a um encarecimento na dívida dos seus respectivos países, o que se traduz contabilmente em um aumento dos ativos do Banco Central.


Dessa forma, para poder manter o balanço equilibrado, os Bancos Centrais de economias desenvolvidas estão fazendo algo semelhante ao que o FED faz: compram títulos de bancos comerciais e pagam-os com dólares criados do nada, para que esses bancos não venham à falência e "destruam completamente o sistema financeiro internacional causando o colapso completo do sistema capitalista e nos mandem de volta para a idade média".


Porém, assim como os BCs das maiores economias do mundo (Exceto China) não são responsáveis pela grande demanda para entesourar ouro, os BCs de países emergentes não tem a capacidade que outros países tem de imprimir moeda e ainda sim não sofrer com tanta inflação. Veja o que aconteceu no Brasil: IPCA de 10% em 2021. E imprimimos muito menos dinheiro do que os EUA.


Para esses Bancos Centrais "menores" darem mais valor à suas moedas, eles podem comprar ouro (que entra na coluna de ativos do balanço) para contrabalancear a emissão de moeda (que é, ou deveria ser, a maior parte do passivo do BC). Essa afirmação não passa de uma opinião se eu não embasá-la com dados (e nesse ponto, ela se torna um argumento com alguma validade). Posto isso, veja aqui e aqui os maiores compradores de ouro no ano de 2020. Todos são países subdesenvolvidos e em desenvolvimento como Turquia, Índia, Uzbequistão e Taiwan, corroborando com minha hipótese, de que países emergentes ainda estão comprando ouro para fortalecer seus balanços frente a uma moeda cada vez mais desvalorizada.


Além disso, com o aumento das taxas de juros, o custo de oportunidade de manter ouro entesourado começa a aumentar, e outros ativos (como títulos públicos de 10 anos americanos ou alemães) começam a fazer mais sentido como reserva de valor do que barras de ouro enterradas no subsolo de um banco. Os Bancos Centrais terão que fazer a decisão entre lastrear sua moeda em dívida estrangeira, que não tem nenhum custo atrelado mas fica à mercê de condições econômicas daquele país, ou em ouro, que envolve custos de oportunidade e estocagem mas tem um valor intrínseco. Esse mesmo argumento se aplica ao investidor pessoa física que gostaria de se expor ao mercado de ouro comprando certificados de ouro ou barras físicas.


Nesse cenário, fica difícil dizer qual a força que mais vai se destacar, pois, se por um lado temos um provável aumento da demanda de ouro para joias, um provável aumento da demanda por parte dos bancos centrais e uma inflação global elevada, do outro temos taxas de juros subindo que causam um queda da atratividade do ouro e o aumento da atratividade de outros instrumentos financeiros substitutos ao ouro.


Note, que até o momento, não tocamos no componente "preço" do ouro, apenas em quantidades. Isso é deliberado, pois o preço do ouro é a resultante de todas as forças de mercado, e o "preço justo" é puramente teórico e uma estimativa educada. A minha ideia aqui é entender, ao invés de qual o preço justo, qual o sentido que o preço atual vai tomar.



Formas de se expor ao mercado de Ouro

- Ouro Físico

Existe, no Brasil, duas formas de se investir em ouro físico: comprando barras de ouro de distribuidores e armazenando na sua casa ou em algum cofre, ou comprando contratos de ouro na B3. Mas quais as vantagens e desvantagens de cada forma?

Ao comprar a barra física de ouro, você fica responsável pelo armazenamento dela e, por consequência, você pode guardar a barra na sua própria casa e evitar os custos atrelados ao armazenamento de ouro. Você ainda tem a possibilidade de simplesmente sair do país e levar a barra de ouro com você. Porém seu custo, ao adquirir a barra, tende a ser um pouco maior, pois a empresa que está te vendendo tem que transportar e armazenar essas barras para que você consiga comprar, além de ser relativamente menos seguro armazenar ouro em barras na sua casa.


Ao comprar o contrato de ouro, que são negociados sob os tickers OZ1D, OZ2D E OZ3D (negociando-se lingotes de 250g, 10g e 0,255g), você está negociando um papel que representa o lingote inteiro (no caso do OZ1D), ou uma fração de um lingote (no caso do OZ2D e OZ3D). Esses lingotes são armazenados dentro de cofres sob o controle da B3, então você paga uma taxa de manutenção no valor de 0,121% sobre o valor de mercado da sua posição por mês para manter seu ouro armazenado. Esse valor as vezes inviabiliza uma posição longa em ouro em momentos de mais frieza nesse mercado. Outra desvantagem é a necessidade de ter lingotes de 250g inteiros para poder fazer a liquidação física, ou seja, você pode ir até a B3 depois de ter comprado um contrato de OZ1D e solicitar o saque em lingotes de ouro. Porém, a liquidação financeira (transformar o ouro em dinheiro na sua conta) é extremamente fácil, já que que você tem acesso, efetivamente, ao mercado do Brasil inteiro, ao passo que ao tentar vender o ouro em barra, você tem que achar alguma empresa ou pessoa que esteja disposta a comprar o seu ouro, sem contar que os preços no mercado financeiro, por conta da maior liquidez, tendem a ter uma diferença menor entre valor de compra e valor de venda.


- Fundos de Ouro

É possível também investir através de fundos de ouro, tais como o Órama Ouro FIM ou o XP Trend Ouro Dólar FIM, mas é necessário um pouco de atenção com as taxas de ADM (que dependendo do fundo chega a ser 1% ao ano) e se há ou não a exposição cambial. Em geral, esses fundos operam comprando contratos de ouro na B3, porém eles também tem uma parte do fundo alocada em títulos federais para dar uma balanceada na volatilidade do ouro. Em específico, os fundos que tem a exposição cambial costumam ter uma volatilidade ainda maior, pois, além de ter posições compradas em ouro, também tem posições compradas em dólar ou em ouro cotado diretamente em dólar (como futuros da bolsa de Nova York). De fato, isso pode trazer um bom rendimento em momentos de crise brasileira, porém pode cair bastante caso o dólar e o ouro desvalorizem juntos.


- ETFs de Ouro (Físico e Empresas)

Se você quiser escapar das taxas cobradas ao comprar um contrato de ouro, de armazenar o ouro físico na sua casa ou de contratar uma empresa para estocar seu ouro, você pode se expor a esse mercado através de fundos negociados em bolsa.

No Brasil, temos um ETF de ouro chamado GOLD11, que busca refletir o ETF Americano IAU. O IAU é um fundo negociado em bolsa que tem seu patrimônio alocado praticamente exclusivamente em barras de ouro física armazenadas em diversos cofres ao redor do mundo. Tanto esse fundo quanto o GOLD11 tem taxas de administração muito baixa (entre 0,3% e 0,4% ao ano), reduzindo muito os custos de manter ouro em carteira por longos períodos de tempo. Porém, vem com a desvantagem de você não poder realizar a liquidação física do ouro investindo pelo GOLD11.


Também é possível se expor a ETFs que investem em mineradoras de ouro. Entre eles, vale ressaltar o GDX e o RING. O GDX é o ETF com a menor taxa de administração anual e o maior capital alocado, porém ele não investe somente em mineradoras de ouro. As mineradoras desse ETF tem o ouro como componente de sua receita mas não necessariamente são a maior parte da sua receita. O RING, por sua vez, investe em empresas em que a maior parte da sua receita vem da mineração de ouro.


- Mineradoras de Ouro

"Mas Pedro, eu não quero ficar pagando NENHUMA taxa de administração para nenhum fundo". Bom, então talvez ouro não seja para você ou você está procurando emoções na bolsa. Eu digo emoções pois quero fazer um pequeno experimento com vocês aqui.

Suponha uma mineradora de ouro que produza mil toneladas de ouro puro por ano e distribua todo o lucro para o acionista. Essa empresa gasta, por ano, 70 milhões de dólares para minerar, refinar, transportar e vender todo o ouro. Quanto vale essa empresa?



Esse valor de LPA, ao ser usado no Valuation com uma taxa de desconto de 10%, nos indica que o valor "justo" da ação dessa companhia seria algo em torno de US$265 dólares.


E se, subitamente, as 10 maiores mineradoras de ouro quebram? Pela Lei da Oferta e da Demanda o preço deve subir. Vamos supor que o preço do ouro passe de US$1,00 para US$1,30. Nesse caso, com a custódia de ouro, o investidor teria ganhado cerca de 30%, mas esse novo patamar leva a empresa à um valuation na casa de US$530, uma valorização de cerca de 100%. Lindo, que cenário lindo. E se descobrirem um material que substitua completamente o ouro para fabricação de jóias e semi condutores? Bom, nesse caso, o ouro, supostamente, cai para US$0,80 por grama e o valuation da companhia cai para apenas US$88,00, uma queda de mais de 60% no valor da companhia. Horrível, que cenário horrivel.


"Mas Pedro, isso aí é coisa da sua cabeça". Na verdade não, olha que legal:



Esse gráfico compara a variação anual do preço do IAU (o ETF que mencionei que estoca ouro físico) com a variação anual do preço da ação de uma das maiores mineradores de ouro do mundo: a Barrick Gold Coorporation (sob o ticker GOLD). É fácil ver que quando o ouro sobe, a empresa tende a subir mais ainda e quando o ouro cai a empresa tende a cair mais ainda.


De volta pro futuro


Ora, não tenho como saber o que será feito daqui pra frente com os temores sobre as variantes do Covid, a situação Russia-Ucrânia, as taxas de juros brasileiras, americanas e europeias. Podemos supor, baseado no que é dito pelos Bancos Centrais, que as taxas de juros básicas subirão nos próximos anos, aumentando o custo de oportunidade de ouro. Fundamentalmente, com as economias retomando o crescimento, devemos ver um aumento no preço do ouro, e, dado o quanto o mercado bateu nas mineradoras nos últimos meses, julgo ser uma boa hora para se alocar nesse ativo, principalmente ao pensarmos em ETFs, Empresas e Fundos de Ouro, mas continuo achando que adquirir ouro físico ou investir diretamente em ouro físico através de contratos é uma solução muito custosa para se expor a esse mercado. Encerro por aqui hoje, e agradeço a você que leu até aqui. Um abraço, Pedro.

 
 
 

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