Apertem os cintos, o FED subiu (e vai continuar).
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É gente, chegou a hora que todos sabíamos que ia acontecer um dia, mas que ninguém procurou ver. Ficamos todos em negação. Até a Greta Thunberg viu isso vindo, e ninguém deu bola (Lembra dela falando sobre "fairy tales of eternal economic growth"?). Pois é, depois de mais de uma década (sim, desde 2008) de anabolizantes e anfetaminas sendo injetadas diariamente e em doses cavalares nos mercados financeiros americanos, parece que a farra chegou ao fim.
O Federal Reserve dos Estados Unidos da América fez o que todos nós mais temíamos, na reunião de Março do FOMC, a taxa de juros básica americana subiu de 0% a 0,25% para 0,25% a 0,5%. Um aumento de 0,25%, o que efetivamente dobra a taxa de juros básica americana. Com sinalização de mais elevações durante o ano de 2022.
E na sua declaração para a imprensa é dito: "Inflação continua elevada" e que os impactos da invasão russa à Ucrânia vão gerar mais "pressões ascendentes na inflação e pesar no crescimento econômico"

Aí o FED nos dá mais uma vez sua missão, que é garantir pleno emprego e inflação em 2%. Será que ele está conseguindo isso? Bom, é fácil de ver. Num mesmo gráfico, eu plotei a Inflação Norte Americana (medida pelo CPI, linha verde), a taxa de desemprego (linha roxa) e a taxa básica do FED (linha preta) nos últimos 20 anos.

Podemos ver que a meta de emprego realmente foi atingida pelo FED (considera-se pleno emprego nos EUA algo em torno de 3%), mas com uma inflação de mais de 7% ao ano. Finalmente podemos dizer que o Brasil é parecido com os EUA. Pelo menos, na inflação.
Apenas para clarificação, o CPI americano é divulgado que nem o IPCA brasileiro: mensalmente divulga-se a variação no índice, mas sempre que ele é plotado, utiliza-se a variação acumulada nos últimos 12 meses.
Ora, mas o quão ruim é 7% ao ano de inflação? Nada ruim, só a inflação mais alta dos últimos 40 anos de história americana. E o que aconteceu na última vez que a inflação esteve tão alta? Paul Volcker, presidente do FED do período de 1979 a 1987, subiu tanto as taxas de juros, que provocou uma recessão americana de 1981 a 1983, mas trouxe a inflação de volta para patamares aceitáveis.

Então sim, existe uma inflação extremamente alta, e o remédio para isso pode ser uma recessão econômica profunda.
Lembra que o FED menciona que o impacto da guerra na inflação é pouco previsível? Pois, vamos então, tentar prever aquilo que o FED disse que é impossível. Através de uma aplicação web desenvolvida durante um programa de Mestrado no MIT e posteriormente suportada independentemente por uma empresa, podemos verificar o fluxo do comercio mundial entre os mais vários países e produtos. Para o tree map abaixo, basta clicar nesse link.

Ótimo, sabemos então que dos USD54 Bilhões que os EUA importaram de petróleo em 2019, creca de 9% veio da Rússia. Quanto isso significa pro consumo de óleo americano? Oras, se consideramos que o preço médio do óleo refinado nos EUA em 2019 foi de USD 1,9188 por Barril, uma simples conta nos diz que os EUA importam cerca de 2,5 bilhões de barris de petróleo refinado russo em 2019 (USD54 BI * 9% / 1,9188 USD por Barril). Se, de acordo com o Statista, o consumo de óleo nos EUA ficou em cerca de 20,5 milhões de barris por dia, os EUA precisaram importar petróleo da Rússia equivalente a 4 meses de consumo interno. Assustador.
Numa inferência simples, se a quantidade de petróleo disponível diminuiu em 33% (pois os EUA baniram toda importação de óleo russo), e a demanda manteve-se mais ou menos a mesma. podemos supor um grande aumento de preço para o petróleo no mercado americano (Lei Básica da Economia). Ninguém precisa de um PHD em Economia para entender que se o preço do petróleo sobe (e vai subir e continuar subindo), todo o resto da economia sofre com esse aumento. Por quê? Por que petróleo impacta diretamente no preço dos combustíveis mais utilizados, em plásticos, em lubrificantes, em aditivos, em basicamente tudo. Fazendo uma relação com a física: aumentar preço de petróleo é um efeito de alavanca para inflação. Um aumento de x% no petróleo não é traduzido como um aumento x% na inflação, e sim algumas vezes x%. Então FED, claramente você terá a inflação beeeem pressionada para cima por conta dessa guerra, não tem incerteza alguma.
O que podemos esperar daqui pra frente? Bom, estamos cansados de saber que para controlar a inflação, os bancos centrais utilizam como ferramenta primária as taxas de juros. E quando sobem as taxas de juros, o custo para captar dinheiro aumenta, logo investimentos em expansões de empresas ficam mais escassos, causando uma desaceleração do consumo e, consequentemente, da inflação.
Então, respondendo minha própria pergunta, podemos esperar um ciclo de aumento de taxas de juros nos EUA que pode repetir o que a história mostrou com Paul Volker: uma recessão causada por esse aumento de taxas de juros. Alguns sinais de recessão americana já se mostram no mercado. Primeiro, observe a curva de juros dos EUA:

O que essa curva mostra? Bom, para cada título disponível para venda pelo Governo Americano (desde títulos de 1 mês até 30 de anos), grafa-se o rendimento contratado: 0,2% para 1 mês, 2.4% para 2 anos, e assim por diante.
Essencialmente, quando o rendimento dos títulos curtos dispara (o que aconteceu de 6 meses para cá, conforme as linhas laranja e verde), significa que investidores estão querendo se proteger no curto prazo, mais do que no longo prazo, sinalizando temor em relação ao futuro da economia.
E quando as taxas de curto prazo sobem demais, e ficam maiores do que as de longo prazo, isso é um indicador muito preciso de recessões, pelo menos para os EUA. É importante notar que nas últimas "todas as vezes" em que a rentabilidade do Título de 2 Anos ultrapassou a de 10 Anos e a de 3 Meses também ultrapassou a de 10 anos, uma recessão americana ocorreu entre 12 e 18 meses depois.

Podemos ver que os títulos de 7, 5 e 3 anos de duração (US7Y, US5Y e US3Y respectivamente) já estão pagando mais juros que o título de10 anos, e isso é o início da inversão da curva de juros.
E agora, vou escrever o que ninguém quer ler: O FED esta defecando e caminhando se os mercados vão continuar subindo ou não. Ou ele controla a inflação, ou os americanos morrem de fome (40% das pessoas que dependem de pensão já estão reduzindo o consumo de carne por conta do preço, e, até mesmo, banhos quentes). Vamos passar por um ciclo de apertamento monetário, que provavelmente foi visto nos EUA somente na década de 80.
Para entendermos se estamos muito ou pouco próximos de uma recessão na economia dos Estados Unidos, vamos analisar indicadores clássicos, além do que já foram analisados: Case-Shiller National Home Price Index (índice dos preços de residências, antecedente), Manufacturers New Orders: Durable Goods (índice de compras industriais de bens duráveis, antecedente) e Compensation of Employees, Received: Wage and Salary Disbursements (Salários pagos pelas empresas para os funcionários, em bilhões de dólares, atrasado).
Comecemos, então, pelo índice de preços de residências.

Para deixar nossa análise um pouco mais precisa, ao invés de plotar o valor do índice, plotei, através da ferramenta de gráficos do FRED, a variação porcentual do índice em relação ao mesmo mês do ano anterior. Assim, podemos ver claramente como funciona esse indicador em relação ao ciclo de negócios da economia norte americana: quando a variação em relação ao ano anterior começa a cair, é um indicativo de que a economia americana como um todo está desacelerando. Podemos ver esse comportamento antes de todas as recessões americanas desde que esse índice foi criado, em especial a crise imobiliária de 2008 e a bolha .com em 2000. Minha leitura é que esse índice está sinalizando que logo chegaremos em um pico de atividade econômica para os EUA.
O próximo indicador, o de compras industriais, fiz uma análise semelhante: ao invés de utilizar a unidade própria do índice (milhões de dólares por mês), utilizei a ferramenta para visualizar a variação porcentual em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Dessa forma, temos a seguinte foto:

Novamente, estamos observando a velocidade com a qual esse índice está variando. Podemos ver que quando ele começa a desacelerar (anos 2000-2001 e 2006-2007), logo chega uma recessão americana. Temos que nos lembrar também que as comparações de 2021 são relativas à 2020, então esse pico que temos de 40% de aumento é um pouco enganoso. Pelo que me parece, esse indicador está corroborando a história contada pelo Case-Shiller index: estamos próximos do pico de atividade da economia americana.
Por último, vamos ver um indicador atrasado, utilizado para confirmar tendências, o Compensation of employees. Não vou me repetir e aporrinhar você com o tratamento que fiz, basta dizer que é a variação em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. É importante dizer algo, entretanto: esse indicador mostra o agregado de todos os salários pagos por empresas, não o salário médio. Em outras palavras, mostra a folha de pagamento do setor privado norte-americano.

Podemos ver que o dispêndio com salários é o menor logo após as crises. Como é um indicador atrasado, é difícil o que ocorre daqui pra frente, mas podemos dizer que com certeza a crise de 2020 já está encerrada e bem longe no retrovisor do Tio Sam. E, olhando para nosso gráfico clássico do ciclo de mercado, onde eu apontaria a economia dos EUA? Provavelmente entre o final da fase 1 início da fase 2. Temos um pouco de fôlego na economia americana ainda, mas com o aumento dos juros do FED, esse fôlego vai rapidamente se esvair.

Então vamos esperar para os próximos anos: dólar um pouco mais enfraquecido, empresas dos EUA diminuindo as margens de lucro podendo inclusive auferir crescimentos de lucro negativos dependendo do tamanho da recessão. Título de longo prazo pré-fixados americanos perdendo valor na marcação a mercado. Títulos de Inflação americana também reduzindo seus preços à mercado (já que o juro real vai começar a aumentar). Empresas menores quebrando e sendo compradas por empresas maiores. Programas de recompra de ação de empresa e desemprego.
Podemos esperar também um aumento no gasto estatal americano, já que a alta de taxas de juros tem influência direta na dívida americana.
E como você ganha com isso? Oras, se você é um brasileiro, a coisa mais sensata é aproveitar esse enfraquecimento do dólar e montar um pé-de-meia fora do país para aumentar sua liberdade territorial. Se você tem dinheiro em caixa, a sugestão é esperar a inevitável queda dos mercados americanos para entrar comprando, ou para reduzir seu preço médio caso você já esteja alocado.
Mas, o momento é de prudência, de jogar na defensiva, de garantir que todo o dinheiro que você acumulou ao longo dos anos não será completamente reduzido à pó. Não é hora de aumentar exposição em bolsa, não é hora de tentar ganhar com precificação a mercado de títulos pré-fixados. É hora de montar o caixa (seja por novos aportes ou liquidações de posições com rentabilidades muito grandes). É hora de ficar bem quietinho, no canto, se fingindo de morto, esperando o tiranossauro rex passar.
Por hoje é só!
Um abraço,
Pedro.




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