Bitcoin e Moedas
Antes de tudo, vou deixar aqui os avisos costumeiros: se eu escrever alguma abobrinha fique a vontade para me corrigir nos comentários e ISSO NÃO É UMA RECOMENDAÇÃO DE INVESTIMENTOS. Agora que a CVM já não está no meu encalço, vamos ao assunto de hoje.
Acho que a pergunta mais pertinente para começarmos a explorar esse assunto é: o que é dinheiro? Dinheiro é, de acordo com Murray Rothbard, uma mercadoria utilizada como meio geral de troca, selecionada naturalmente pelas interações de mercado entre indivíduos. Diversas mercadorias já foram utilizadas como moedas durante a história da humanidade: sal, na Roma antiga, tabaco na Virginia Colonial, cobre no Egito Antigo, gado na Grécia Antiga e até mesmo (pasme!) pregos na Escócia.
Mas por que essas mercadorias são utilizadas como dinheiro? Pois elas tem um valor intrínseco para cada indivíduo (usava-se sal para conservar carnes, tabaco para fumar, gado para se alimentar, pregos para construir casas) e seu valor era amplamente reconhecido por outros indivíduos. Por isso, um mercador poderia comprar tecidos com sal, manufaturá-lo em roupas, e vendê-los por sal também, pois nessa sociedade, o sal era um bem altamente demandado.
Vamos fazer um pequeno exercício de pensamento para que esse conceito fique mais claro. Imagine uma sociedade hipotética onde existem alguns produtos disponíveis; ovos, manteiga, sal, porcos, algodão e soja. Um produtor de ovos, João, gostaria de obter um pedaço de lombo suíno para jantar. Ele vai ao mercado da cidade até o açougue e oferece 5 ovos por um pedaço de carne. Mas a dono do açougue, Maria, não gosta de ovos, então não faz sentido para ele trocar uma mercadoria por outra que não tem utilidade pra ele. João tenta entender o que a açougueira gostaria de ter, e, durante a conversa com ela, descobre que Maria está precisando de uma camiseta nova.
João, em busca da sua fatia de lombo suíno, vai até a barraca de roupas, e oferece 5 ovos por uma camiseta. Steve, que é dono da barraca, lhe diz que já tem ovos para a semana, mas lhe falta sal para temperá-los. João, um mercador hábil, corre até a barraca de Joana, que vende sal, e rapidamente troca seus 5 ovos por 100g de sal, pois ela estava faminta e estava disposta a pagar qualquer preço que fosse pelo sal. Ao invés de voltar até a barraca de Steve, ele vai direto à barraca de Maria e lhe oferece 5g de sal pelo lombo suíno, ao mesmo tempo que lhe diz que Steve está vendendo a camiseta que Maria necessita. Então, ele volta feliz para casa com seu lombo e sem seus ovos, mas com sal disponível para trocar. O sal se tornou dinheiro. 5g de sal compram uma peça de lombo suíno. 100g de sal compram 5 ovos. Supostamente 5g de sal compram uma camiseta. Dessa forma, um bem com bastante utilidade para todos na sociedade se tornou a unidade de conta para realizar trocas de mercadorias, o que Rothbard chama de trocas indiretas.
Além de ser um bem demandado, ele também serve como unidade de conta. Nessa sociedade, supostamente, o sal é de difícil obtenção, então a quantidade de sal disponível não é bruscamente alterada com o passar do tempo. O sal também não estraga, então as pessoas podem estocar o sal para uso futuro. E por ser altamente demandado, ele tem ampla aceitação.
Essas características do sal nessa sociedade são encontradas em todos os exemplos de commodity money disponíveis na história humana: ser uma unidade de conta, ser de difícil falsificação, ser facilmente transportável, ter um valor estável e ser uma reserva de valor (podemos ver desde já que o Real Brasileiro não é dinheiro, vide a depreciação que ele sofreu desde sua criação, mais sobre esse assunto depois).
Claro, existem outros tipos de dinheiro, tais como o fiat money, utilizado hoje em dia. Fiat vem do latim e significa "que se faça". Então o fiat money é simplesmente dinheiro (que se faça o dinheiro). Não tem um valor intrínseco que nem o sal ou o ouro, por não ter nenhuma utilidade a não ser um meio de troca. Você não pode comer o dinheiro, você não pode beber o dinheiro, você não pode alimentar gado, fabricar joias ou instrumentos agrícolas ou industriais. Você não pode utilizá-lo como meio de transporte. A partir do momento em que deixam de acreditar no valor de troca do fiat money, todos os milhões que você acumulou durante a vida viram pó.
É importante não confundir o fiat money com o fiduciary money. A fiat é imposta por um Estado para ser usado, e o Estado garante que seu valor será sempre reconhecido (eu dei risada escrevendo isso), ao passo que a fiduciary é baseada na relação de confiança entre um pagador e um recebedor, como um cheque. Quando se passa um cheque, uma relação de confiança é estabelecida entre o comprador e o vendedor, pois ambas as partes concordam que aquele pedaço de papel representa algum valor.
Fiat money pode ser um fiduciary money? Pode, inclusive já foi assim, até 1971. Antes disso, todo dólar americano emitido tinha um lastro em ouro, então qualquer um poderia ir até o Federal Reserver e trocar seus dólares pelo equivalente de ouro. Após isso, todo dólar emitido passou a ser exclusivamente fiat money, garantido pela integridade do Governo dos Estados Unidos (até quando vão acreditar num governo que trava guerras em nome da "paz e democracia"?)
Depois dessa longa tangente, vamos voltar ao assunto de Bitcoin. Temos que primeiro nos perguntar: é moeda? Por mais entusiasta que eu seja, é um categórico não pelos seguintes motivos: não é amplamente aceita ainda e não tem market cap suficiente para que seu preço seja estabilizado (ou seja, não funciona como unidade contábil).
Tá, e o que é? De acordo com o whitepaper publicado por Satoshi Nakamoto é um "Sistema P2P de pagamentos eletrônicos". Recomendo a leitura desse whitepaper para entender exatamente o que é o blockchain e como resolve o problema de double-spending sem necessitar de uma entidade centralizadora, tornando cada transação única. Em resumo, uma rede de confiança é estabelecida entre todos os nós da rede, sendo que cada nó é responsável por validar matematicamente cada transação. Quando uma transação é verificada como verdadeira por um nó, outros nós validam se a solução é correta, e quando mais da metade da rede aceita que essa transação é verdadeira, ela é inserida no blockchain (como se fosse um livro contábil) e torna-se a base para futuras verificações de transações. No caso do Bitcoin, cada transação demora cerca de 10 minutos para ser verificada, pois o problema matemático é muito difícil de resolver, o que se traduz numa rede mais lenta, porém mais segura.
Já prevejo as pessoas que leem isso aqui gritando: mas bitcoin é o futuro, bitcoin é o que precisamos para liberdade. E eu concordo!! Mas, na minha leitura, precisamos que algumas coisas aconteçam para que o bitcoin se torne amplamente usado. Primeiro: regulamentar pesadamente o bitcoin para proteger seus usuários. Brincadeira, não regulamentem o bitcoin
A primeira coisa é desmistificar o Bitcoin e facilitar o seu acesso. Diversas corretoras de criptomoedas já fazem isso, fornecendo artigos, serviços de corretagem, lives e cursos sobre criptomoedas, além de vários influencers.
A segunda coisa que precisa acontecer, é o aumento da quantidade de bitcoins disponíveis. Isso vai levar tempo, mas o bom é que é apenas uma questão de tempo.
A terceira, é aumentar a capitalização de mercado, ou seja, ter mais investidores transacionando Bitcoins para aumentar o volume negociado diariamente e, possivelmente, trazer mais estabilidade do preço do Bitcoin em relação a outras moedas. Pense nos ativos que são pouco negociados na bolsa. Não é incomum ver variações de 10% num dia num ativo "pózinho" por que algumas ordens de compra e venda casaram no dia.
A quarta, que já vem acontecendo, são empresas aceitando bitcoins como meios válidos de pagamento. Ifood já aceita em alguns países, Paypal começou a aceitar, Tesla falou que vai aceitar também.
E vamos agora para algumas contas que podemos fazer. Por exemplo: qual é o valor teórico do bitcoin? Uma forma simples de calcular o câmbio esperado entre dois pares de moedas leva em conta a taxa de juros dos países emissores do par de moedas sendo comparado. Se formos fazer o cálculo do Dólar Americano (USD) em função do Real Brasileiro (BRL), multiplicamos o câmbio atual por 1+JurosBrasil e dividimos por 1+JurosEUA. Ou seja:
DólarFuturo = DolarVista*(1+JurosBR)/(1+JurosEUA).
É importante notar que devemos considerar o juro real, não o nominal, ou seja, a taxa básica de juros corrigida pela inflação. Pra isso, usamos a fórmula de Fischer onde R é a taxa real, I é a taxa de juros e K é a inflação: R = (1+I)/(1+K)-1. Para o Brasil, essa taxa é de -1,67% (considerando a inflação à 4,5% e Selic à 2,75%) e para os EUA é de -2,19% (considerando o Federal Funds Rate de 0% e inflação de 2,24%). Dessa forma, temos o dólar futuro, tomando como base a média entre compra e venda do dólar PTAX em 18/03/2021 do Banco Central deve valer: 5,5471*(1 - 1,67%)/(1 - 2,19%) = 5,57 (na verdade 5,5764).
E no caso do Bitcoin? Que taxas de juros usar? Vou utilizar outra forma, menos correta na minha opinião, que é fazer a a divisão entre o M0 do Dólar pelo M0 do Bitcoin. Como já expliquei o que é o M0 em outros posts, não vou me repetir aqui, mas deixo um link para quem nunca ouviu falar entender o que é essa definição. Ou seja, o Câmbio esperado entre BTC e USD será de US$5.247.900.000.000,00/BTC21.000.000,00 = 249.900,00 USD/BTC, dado que os EUA não imprimam mais dinheiro ou reduzam a quantidade de dinheiro em circulação.
Para aqueles que estão se perguntando, isso não é possível de acontecer com Bitcoins, pois ele é matematicamente limitado à 21 milhões de unidades. Nesse racional, cada bitcoin, no futuro, valera cerca de 250 mil dólares.
Essa conta não leva em consideração os efeitos da política monetária, nem poder compra, mas a tendência é a perda do poder de compra de dólares (por conta do aumento da quantidade de dólares disponíveis no mercado, como já mostrado em outro post), logo, uma apreciação aparente do Bitcoin em relação ao Dólar. Mesmo que o Câmbio se estabilize em 250 mil dólares por Bitcoin, cada Bitcoin poderá, potencialmente, comprar mais coisas que 250 mil dólares.
E como o Bitcoin funciona dentro de uma carteira de investimentos? Pode ser encarado como reserva de valor, apesar de ser uma visão um pouco equivocada na minha opinião, ou como uma posição convexa com quase nenhuma correlação com o resto da carteira. Em geral, os movimentos de criptomoedas são muito mais motivados por emoção do que por razão, o que pode ser observado diretamente nas notícias. Pode-se dizer que criptos tem seu próprio ciclo de mercado.
Agora, não é nada prudente expor seu patrimônio de forma significativa ao mercado de criptos. Como sua volatilidade ainda é muito grande, deixar seu suado dinheirinho exposto a tal risco pode ser contraproducente no sentido de acumulação de capital. Dessa forma, uma exposição moderada, entre 0,5% e 2,0% ao mercado, dependendo do seu apetite de risco, perfil de investidor, objetivos e condições financeiras, pode ser uma boa rule of thumb. Pessoalmente, tenho 0,63% da minha carteira alocada em cripto ativos, pois já tenho exposições convexas em outros mercados, que virei a discutir futuramente.
Acho que é tudo por hoje, nos vemos no próximo artigo. Um abraço, Pedro.




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