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Brasil. Onde estamos?

28 de mai. de 2021
9 min de leitura

Olá. O primeiro post que fiz nesse blog era uma reflexão sobre o momento do Ciclo de Mercado que o Brasil se encontrava. Além de explicar exatamente o que era o Ciclo de Mercado que tanto ouvimos por aí, conclui que, durante a pandemia, tínhamos adiantado uma inflexão do mercado, levando à um saneamento de balanços e tracei um cenário para os próximos meses.


Agora, seis meses depois dessa análise, gostaria de revisitar o tema, mostrar onde acertei e onde errei na previsão do cenários, e continuar com a análise para responder com um pouco mais de precisão à pergunta: em que momento do ciclo econômico estamos?


Parte 1: A Análise Atual do Ciclo.

Por onde começar? Os mais espertinhos diriam que "pelo começo", e é exatamente por aí que vou começar: pelos indicadores antecedentes, aqueles que antecedem os movimentos da economia real. Quero analisar aqui 3 deles: Formação Bruta de Capital Fixo, índice Bovespa e IPA. Vou primeiro colocar os gráficos e depois discutir cada um em detalhes.


Índice Bovespa - 2018 a 2021 - Fonte: Koyfin.
IPA - Média Móvel 12 meses - 2012-2021. Fonte: Sistema Gerenciados de Séries do Banco Central do Brasil
Formação Bruta de Capital Fixo - Índice e Média Móvel de 12 meses da Variação - Fonte: Ipea

O que esses três indicadores estão falando? Qual a história eles estão nos contando?

O Ibovespa, desde o derretimento causado e agravado pela Pandemia de Covid-19 em fevereiro a abril de 2020, já acumulamos uma boa valorização, na casa dos 100%. Isso vai em linha com outras quedas abruptas, tanto no mercado nacional quanto no mercado internacional. Para dar alguns poucos exemplos:

  • Crise dos Subprimes (2008):

    • 120% de Valorização do Ibov em 12 meses.

    • 80% de valorização do S&P500 em 12 meses.

  • Crise de 2016 (Brasil):

    • 80% de valorização do Ibov em 12 meses.

  • Estouro da bolha Ponto Com (2000):

    • 75% de valorização da Nasdaq em 12 meses.

É relativamente seguro dizer que, nos patamares atuais, passamos pela pior fase do Ciclo de Mercado, que é a contração ou depressão. Lembram da forma do ciclo? Segue a imagem para refrescar a memória.


Para auxiliar nessa narrativa, temos que analisar ainda o IPA-M (Índice de Preços por Atacado - à Mercado) e o Índice de FBCF (Formação Bruta de Capital Fixo). Resolvi utilizar a média móvel de 12 meses para avaliar esses indicadores, pois acaba nos fornecendo uma visão mais clara de pra onde estamos indo. A inflação, segue numa trajetória ascendente: parte disso por conta do aumento da base monetária, parte por que muitos investimentos ruins que foram liquidados na crise agora estão sendo realocados em outros investimentos, como evidenciado pelo FBCF.

Apenas para recapitular:

  • IPA mede a variação de preços que são pagos por empresas. Logo, um aumento generalizado desse índice me leva a crer que a demanda por esses bens aumentou.

  • FBCF mede a quantidade de bens de produção ou capital que são instalados nas indústrias. Bens de produção ou capital são aqueles bens que são utilizados para gerar outros bens, como prensas, tornos mecânicos, robôs fabris ou datacenters (tudo que é CapEx e serve diretamente para produzir riqueza)

Bom, os indicadores antecedentes me mostram que o Brasil pode estar engatando numa recuperação econômica, então, puramente baseado nos indicadores antecedentes, podemos colocar o Brasil bem no meio da fase 4 do ciclo.


Agora, vamos para os indicadores coincidentes: Endividamento de Famílias, Vendas no Varejo, e Atividade Econômica.

O Endividamento das Famílias é um indicador novo que trago aqui. Vamos discuti-lo um pouco para poder tirarmos uma conclusão embasada. Esse indicador soma todas as dívidas que as famílias tem junto ao Sistema Financeiro Nacional e divide por toda a renda acumulada das famílias no últimos 12 meses. Dessa forma, tem-se uma indicador que mostra quanto da renda de um brasileiro médio está comprometido com dívidas (seja de financiamento de imóveis, automóveis, cartões de crédito, crédito consignado e etc).

O que faz uma pessoa se endividar? Racionalmente falando, uma pessoa pode se endividar se ela pensa que sua renda futura será maior do que sua dívida, indicando um sentimento positivo das pessoas em relação ao futuro econômico. Porém, temos que levar em conta o cenário pandêmico que vivemos ao longo dos últimos meses. Muitas pessoas perderam seus empregos, mas, como os boletos não ligam pra isso, as contas para pagar continuam chegando. É possível que essa alta observada no final de 2020 e início de 2021 seja um reflexo desse endividamento por necessidade, não por opção.

Para termos uma resposta bem assertiva, podemos tentar comparar com períodos recessivos anteriores, por exemplo, entre 2014 e 2016. Mesmo tendo sido a recessão mais profunda que tivemos nas últimas décadas, com desemprego subindo e renda familiar diminuindo, as pessoas ainda sim preferiram quitar, ao invés de contrair, novas dívidas, logo o indicador se manteve estável (para consultar essa série, basta acessar o Sistema Gerenciador de Séries do Banco Central e procurar pelo código 19882).

Assim, minha leitura é que as pessoas estão otimistas com o prospecto da economia, então estão contraindo mais dívidas (comprando casas e carros por exemplo). Assim, a economia está "rodando" e "aquecida".

Agora, sobre vendas do varejo. Apesar de ser novo aqui no blog, ele é bem autoexplicativo. É o quanto os varejistas vendem para as pessoas. Tem como base o ano de 2014, onde o índice foi definido como 100. Podemos ver os efeitos da recessão de 2014-2016 e a lenta recuperação a partir de 2017. É importante notar que estamos olhando a média móvel de 12 meses, de novo, não para prever exatamente o que vai acontecer, mas para entender qual a direção do movimento econômico. Podemos observar uma lenta recuperação em a partir de 07/2021.

O último dos indicadores coincidentes: índice de atividade econômica do Banco Central. Ele basicamente analisa quantidade de produção industrial no Brasil e funciona como um proxy para o PIB: quando ele começa a acelerar, o PIB tende a crescer, quando ele começa a desacelerar, o PIB tende a diminuir.

Observamos uma clara queda nos primeiros meses de 2020, mas agora, em 2021, existe um leve ensaio de recuperação de atividade econômica, corroborando com o aumento da FBCF. Novamente, baseado somente nos indicadores coincidentes, podemos supor que estamos no meio da fase 4 do ciclo econômico.


Vamos agora na última sessão de indicadores: os atrasados. PIB, Desemprego e Utilização da Capacidade instalada.


Utilização da capacidade Instalada. Fonte: BCB/FGV
Taxa de Desocupação no Brasil. Fonte: Koyfin/IBGE
Taxa de Crescimento anual do PIB. Observações Trimestrais. Fonte: Koyfin

Novamente, vou começar discutindo um indicador novo aqui no Blog: a taxa de utilização da capacidade instalada. Esse indicador, compilado trimestralmente pela FGV, nos mostra o quanto das empresas nacionais estão ocupadas em relação a sua produção máxima. Ou seja, se uma fábrica de carros tem capacidade de produzir 10 carros por dia, mas por conta de uma demanda fraca esta produzindo apenas 6, sua taxa de utilização é de 60%.

Por conta dos lockdowns (sem querer ser muito chato politicamente, é importante diferenciar a quarentena de lockdown. Na quarentena, infectados e possíveis infectados são isolados da população, ao passo que no lockdown todos são trancados em suas casas) instaurados no Brasil, podemos observar claramente a queda de produção no primeiro trimestre de 2020, em conjunto com o aumento do desemprego e contração do PIB. E agora?

Bom, podemos observar um aumento na taxa de crescimento do PIB, muito por conta do efeito de comparação fácil: o PIB em no segundo trimestre de 2020 foi pífio e continua declinando até hoje, porém, uma variação de 10 milhões em 1 bilhão é muito menor percentualmente do que uma variação de 100 milhões em 2 bilhões (números arbitrários somente para exemplificar).

também podemos verificar que a utilização da capacidade instalada está melhor do que estava em 2016, mas ainda sim longe da capacidade máxima. O desemprego, apesar de ter ensaiado uma diminuição no começo de 2021, continua numa escalada preocupante, e já se configura como recorde desde que o IBGE começou a computar o indicador em 2012. Antes disso, o segundo maior pico havia sido em Setembro de 2020 e o terceiro maior pico de desocupação no final da recessão do Governo Dilma 2/Temer.

Mais preocupante ainda é quando você entende que a taxa de desocupação não leva em conta aquelas pessoas que desistiram de procurar emprego, o chamado desalento. Se levarmos em conta a taxa de desalento, temos em torno de 20% da força de trabalho parada, algo realmente preocupante.

Então, baseado apenas nos indicadores atrasados, podemos dizer que ainda estamos no final da fase 3 e ainda não entramos na fase 4.


Parte 2: Retrospectiva e explicações sobre a análise feita em Dezembro/2020.

Bom, em partes acertei, em partes errei. Acertei em dizer que a inflexão do ciclo econômico coincidiu com o agravamento da pandemia de Covid, mas errei em dizer que tínhamos atingido o fundo do poço em maio. Num cenário análogo ao dos Estados Unidos, que realizou uma campanha maciça de vacinação da população, talvez eu tivesse acertado. Mas vivemos no Brasil e como sabemos, nós, que já fomos um exemplo de vacinação, agora somos motivo de chacota. "Ahh mas já vacinamos não sei quantos milhões". Sim, os EUA tem a mesma população que a gente e já vacinaram a maioria esmagadora da população.

"Mas o Brasil é um país muito grande". O Ministro Eduardo Pazuello foi escolhido por Nelson Teich por seu conhecimento em Logística. Logística não era para ser um problema.

Enfim, ao invés de tentar ser um comentarista político, vou me ater aos fatos: a vacinação no Brasil está sendo lenta. Isso é um dos motivos, na minha humilde opinião, que explica por que nossa retomada não está tão sintonizada assim.

Conjecturei sobre a taxa Selic também. O mercado esperava a Selic a 3% ao ano no final de 2021. Descrevi em outro post o efeito do aumento da base monetária usando como exemplo os EUA. Em resumo: aumentar a quantidade de dinheiro em circulação faz com que o dinheiro perca valor frente aos outros bens da economia, logo eles ficam aparentemente mais caros. Ou seja, inflação.

Disse que o Banco Central estava com uma ingerência enorme e que a Selic a 3% não faria sentido. De fato, não se fala mais em Selic a 3% no final de 2021. As projeções do boletim Focus indicam a Selic a 5.5% no final de 2021, e a 6.5% de 2022 a 2024, com IPCA em torno de 3% ao longo do mesmo período.

Acredito que essa previsão de Selic esteja correta, mas, dado o que foi discutido no primeiro post, ao subir a taxa Selic, a economia é desaquecida. Já estamos com uma economia em frangalhos, então com a Selic a 6% vamos demorar ainda mais para ter uma recuperação econômica pujante.


Parte 3: e agora, o que fazer?


Bom, os indicadores antecedentes me mostram que os detentores de capital estão apostando numa retomada econômica do Brasil. Muito capital em bolsa (Ibov em Alta), muito capital sendo utilizado para instalação de máquina (FBCF em Alta) e com a indústria em geral comprando bastante para suprir uma demanda relativamente represada (IPA-M em Alta).

Os indicadores coincidentes apontam também para uma aceleração do consumo, com pessoas contraindo mais dívidas na expectativa de conseguir repagá-las no futuro e com as vendas no varejo retomando, porém nossa atividade econômica ainda está nos mesmos patamares da crise de 2016-2018, o que não é um prospecto muito animador.

Os indicadores antecedentes que ajudam a clarear um pouco a situação. A utilização da capacidade instalada ainda baixa e o desemprego alto me dizem que estamos apenas agora chegando realmente no fundo do poço. "Afff, lá vem ele de novo dizendo que o Brasil só vai pra frente agora". Muito pelo contrário, acho que estamos com um descasamento muito grande entre a economia real e os mercados financeiros, então, apesar de alguns indicadores realmente apontarem para um início de uma retomada econômica, acredito que o movimento mais prudente que você possa fazer agora é não apostar contra o mercado, mas também não apostar a favor dele. Por mais que eu não goste dele, Maynard Keynes disse uma vez "The stock market can remain irrational longer than you can remain solvent" (o mercado de ações pode ficar irracional por mais tempo do que você consegue ficar solvente).

Dado o cenário político e econômico do Brasil, estamos no fio da navalha. Por acaso, vamos chegar a ser uma Argentina? Acho pouco provável, pois o Brasil tem se mostrado nas últimas décadas como um eterno retorno à média. Sempre quando a situação aperta (para os políticos, principalmente) a gente da um jeito, mas sempre que a situação fica boa, cometemos excessos e retrocedemos violentamente. É só observarmos os governos Lula e Bolsonaro. Lula fez reforma da previdência e algumas privatizações, caso contrário o pais iria ter sua falência decretada pelo FMI. Bolsonaro quis aproveitar a bonança que ter-se-ia sem a Covid para expandir gastos e comprar influência, mas tomou uma pandemia na cara. Note que aqui não estou falando que um é melhor que o outro, estou apenas expondo fatos.


Vou resumir em poucas palavras o que acho que vai acontecer com o Brasil daqui pra frente: uma recuperação econômica nos moldes que vimos após a recessão de 2016-2018 que vai depender muito mais de elegermos candidatos fiscalmente responsáveis e pró-mercado do que qualquer outra coisa.


Temos a mão de obra, temos o capital, temos as máquinas. Só não temos uma coisa: estabilidade de longo prazo. Para encerrar, um verso de Gabriel Pensador:

"Aqui não tem terremoto, aqui não tem vulcão.

Aqui tem tempo bom, aqui tem muito chão

Aqui tem gente boa, aqui tem gente honesta

Mas no poder é que tem gente que não presta"


Gabriel Pensador - Pega Ladrão - 2001.


E para responder a pergunta: em que momento do ciclo econômico estamos? Erroneamente, em dezembro, eu havia dito que tínhamos chegado no fim do poço. Hoje, já acredito que temos ainda alguns metros para chegar no fundo real do poço, e que vai demorar ainda alguns dias para alguém passar por esse poço e ouvir a gente gritando por socorro. Pelo menos, caímos aqui com alguma comida e o tempo está firme, então a situação não parece tão desesperadora.


No mais, é só. Se cuidem, cuidem de suas famílias e de seu suado dinheiro e não façam nenhuma loucura com seu patrimônio pois trarei novidades em breve.



Um abraço, Pedro.

 
 
 

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