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Covid-19: é o fim ou um novo início?

16 de dez. de 2020
4 min de leitura

Desde que o mundo é mundo (tá, exagerei um pouco na datação), o ciclo de mercado é objeto de estudo de diversos economistas que tentam prever, datar, controlar ou aproveitar os diversos momentos de uma economia. Um ciclo de mercado é marcado primariamente por quatro fases distintas: expansão, pico, retração e recuperação.




Durante a expansão, a poupança acumulada das pessoas é convertida em investimentos de empresas, com o objetivo de aumentar os lucros delas, através de instrumentos financeiros de empréstimos, normalmente intermediados por bancos. Assim como qualquer coisa na vida, esses investimentos podem ou não dar certo, e, no contexto dessa reflexão, vale a pena entender o que leva um investimento a falhar.


Podem ser diversas coisas: uma projeção de mercado foi errada, um competidor entrou no mercado com uma vantagem competitiva melhor, o credor precisou executar as garantias, o indexador de ajuste de juros subiu além do esperado, uma crise sanitária ocorreu (basicamente 2020 inteiro), ou o Banco Central meteu o bedelho na economia e elevou as taxas de juros.

Não convém explicar a forma de atuação do Banco Central nesse texto, fá-lo-ei em momento oportuno, basta entender que a taxa de juros que o Banco Central manipula é comumente utilizada para balizar investimentos grandes com a seguinte linha de raciocínio: "A relação risco-retorno desse investimento é melhor ou pior do que deixar o dinheiro aplicado em títulos federais?". Assim, conforme o BC sobe ou desce a taxa de juros ele inviabiliza ou viabiliza investimentos (numa grosseria simplificação, nunca escreva isso numa prova).


Dito isso, é completamente razoável dizer que parte dos investimentos não são rentáveis nem viáveis economicamente, e, por isso, empresas começam a se tornar menos rentáveis, já que tem que arcar com os prejuízos das decisões erradas de investimento. Isso marca o ponto de inflexão do ciclo econômico, a crise ou o pico. Dependendo do grau de erro dos agentes econômicos ou da distorção das condições de mercado causada por Bancos Centrais e intervenções do Estado, essa crise pode desencadear uma recessão ou até mesmo uma depressão.

É durante essa fase de recessão/depressão que as empresas começam a sanear seus balanços contábeis: realizam desinvestimentos, vendem ativos para pagar dívidas, reduzem custos ao fechar plantas de produção deficitárias e reduzem seu quadro de funcionários, com o objetivo de apenas manterem-se vivas. Geralmente, esse tipo de ação de saneamento de balanço deveria ocorrer com poucas companhias e teria apenas um efeito pontual, porém, com a manipulação de taxa de juros discutida anteriormente, muito mais investimentos são economicamente inviáveis, logo a crise torna-se sistêmica.


Passada a fase de depressão, onde as empresas e as famílias encontram-se numa situação financeira saudável, com pouco ou nenhum endividamento e com seus fluxos de caixa de volta ao positivo, novas decisões sobre investimento podem ser feitas para aumentar o bem estar das famílias ou das empresas (leia-se ganhar mais dinheiro).


O que temos até agora? 1 - Mercados são cíclicos

2 - O BC causa ciclos maiores ou menores, mas nunca consegue controlá-lo perfeitamente

3 - Empresas e famílias agem para não ir a falência

4 - Empresas e famílias agem para ganhar mais dinheiro.


Chegamos agora ao nosso título: o coronavírus adiantou ou atrasou o pico do ciclo de mercado que estávamos vivendo?

Vamos entender primeiro qual era a situação do Brasil nos anos pré-corona: a bolsa de valores vinha num crescimento vertiginoso, com 200% de valorização em 4 anos (de janeiro/2016 até janeiro/2020). A Bolsa costuma ser um indicador antecedente ao ciclo de mercado, ou seja, indica qual o possível movimento futuro do ciclo.

Valorização da Bolsa Brasileira medido pelo Índice Bovespa (IBOV)

Podemos ver também que o PIB, um indicador coincidente, subiu nessa época também:

Variação trimestral do PIB Brasileiro

E por último, vamos observar um indicador atrasado, a taxa de desemprego:



Taxa de desemprego no Brasil no período de 01/2016 até 01/2020

Note a tendência de queda da taxa de desemprego a partir de 2017 (lembre-se é um indicador atrasado, ele confirma tendência anteriores).


Minha análise pessoal é que passamos por um ciclo de expansão da atividade econômica até a chegada do Covid no Brasil. E agora? 9 meses depois dos primeiros lockdowns que paralizaram o mundo por algumas semanas? Mais gráficos:

Ibovespa em 2020, até 16/dez
Desemprego no Brasil até Out/2020

Pode-se facilmente observar a finalização de ciclo de mercado: queda no mercado de ações (fevereiro e março de 2020), queda na variação do PIB (2º e 3º trimestre de 2020) e aumento gradual do desemprego (ocasionado principalmente pela falência de pequenos negócios decorrentes do lockdown). A crise sanitária e o lockdown subsequente forçaram as empresas a executar o ponto 3 do nosso corolário anterior: empresas agem para não ir a falência. Isso significa desinvestimento. Podemos observar esse movimento de desinvestimento com o indicador de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). Esse indicador que mede a variação dos bens de capital de uma empresa, ou seja, bens que são utilizados para produzir outros bens ou serviços, como prensas hidráulicas, esteiras de produtos, caminhões e maquinário industrial, a famosa indústria de base. Incluem-se aí também os softwares, datacenters e escritórios coorporativos adquiridos, não alugados. Segue sua variação histórica (2000 a 2020) abaixo e em detalhe para o último ano, respectivamente:


Formação bruta de capital fixo no Brasil até Out/2020.

Nota-se um declínio nos 3 primeiros meses que sucederam os lockdowns seguido de uma recuperação.


E agora, vou à resposta da pergunta, para não ser apenas um click-bait. Covid antecipou o fim de um ciclo de mercado, pelo menos pro Brasil? Sim. O CODACE (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos do IBRE/FGV) já aponta o último trimestre de 2019 como o pico do ciclo anterior e o primeiro trimestre de 2020 como o início de uma recessão no Brasil.


2020 foi um ano conturbado, e, na minha opinião, atingimos o fundo do poço em maio. Com a taxa manipulada pelo Banco Central (SELIC) em 2% ao ano, tem-se um futuro relativamente animador (e assustador) à frente. Nesse patamar de juros, os empréstimos ficam muito baratos, o que possibilita mais investimentos às empresas (mesmo que isso signifique o descasamento da curva de oferta e demanda de crédito) que por sua vez vão impulsionar a economia.


A alta de juros que está prevista para 2020 (IPCA à 4.5%) ainda não sinaliza uma atuação emergencial do Banco Central. As expectativas de mercado é que a taxa Selic comece a subir em 2021, finalizando o ano em 3%. Caso isso aconteça, parece que sairemos do cenário "animador" para o cenário assustador (lembra que eu falei que aumentar a Selic inviabiliza investimentos?). Essa é a reflexão que tinha para fazer. Fiquem a vontade para enviar sugestões e comentários. Um abraço,


Pedro Gaiarsa

 
 
 

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