EUA: O FED é meu pastor e o Mercado Subirá
Olá!
Quero comentar aqui, até de uma forma um pouco arrogante por que eu não tenho nenhuma formação acadêmica em economia, o momento da economia americana, o que o FED tem feito, quais as implicações na economia real americana e na economia brasileira. Vou começar com uma análise de indicadores antecedentes, coincidentes e atrasados da economia americana, mostrar o que o FED tem feito para influenciar nesses indicadores (no limite das minhas capacidades), expor as deduções lógicas que me levam a conclusão de cautela com o mercado acionário americano e, por último, raciocinar o que pode acontecer com o mercado acionário brasileiro frente ao cenário que vou traçar para os próximos anos.
Parte 1: O Ciclo Americano.
Bom, vamos aqui observar somente 3 indicadores para manter a simplicidade (já mencionei diversas vezes que esse blog é apenas minha visão, sem nenhuma pretensão de ser uma análise de um doutor em economia), um de cada categoria.
O primeiro, da categoria antecedente, será o rendimento de títulos do tesouro americano de 10 anos de duração menos o rendimento do título de 3 meses de duração. Esse indicador é um dos mais precisos para estimar recessões norte-americanas, pois em todas as vezes que esse indicador ficou abaixo de zero (ou seja, títulos de 3 meses com rentabilidade melhor que títulos de 10 anos), uma recessão americana se iniciou nos 18 meses subsequentes.

Esse fenômeno é chamado de "Inversão da Curva de Juros", que vocês já devem ter ouvido falar. Mas para entender exatamente o que isso significa, precisamos entender dois pontos chaves: como funcionam os títulos de dívida americanos e como a rentabilidade, ou yield, é calculado.
Os títulos de 10 anos do governo americano são títulos pré-fixados com pagamento de juros semestrais, onde o principal é devolvido no vencimento do título. Ou seja, ao comprar um Treasury Note (Títulos de dívida americana com vencimento entre 1 e 10 anos) de 10 anos com taxa de 3% ao ano por $100, significa que você receberá $3 por ano, pago em duas parcelas, por 10 anos, onde você receberá os $100 de volta. Ou seja, ao final de 10 anos, levando o título até o vencimento, você receberá de volta $130 para cada $100 investidos.
O outro título é o Treasury Bill, com vencimentos em até um ano. Esse título é comprado com um desconto em relação a seu valor futuro em incrementos de $100, e essa diferença é a taxa de juros implícita no seu título. Ou seja, quando você adquire um Treasury Bill de 6 meses, você vai adquiri-lo por $97 e depois de 3 meses o governo americano te pagará $100. Dessa forma, sua rentabilidade é, a grosso modo, 6% ao ano.
Agora que entendemos como funcionam os títulos, vamos entender como o yield é calculado. O yield é definido pelo valor pago pelo título dividido por seu preço. Então um título que paga um cupom de $3 por ano e custa $100 para ser adquirido tem um yield de 3% ao ano.
"Ahh, então eu entendi tudo. Se o título é pré-fixado em 3% ao ano, o yield será 3% ao ano eternamente, e essa tal de curva de juros é balela de bancão pra tirar meu dinheiro, certo?" Errado.
Lembra que eu falei que o yield depende do preço? Quanto maior o preço do título, menor o yield dele, e vice-versa. Quando o governo emite um T-Note de 10 anos, ele fixa o cupom pago para você com base no valor de face, ou seja, no valor que será pago para você quando o título vencer. Nada lhe impede de vender esse título para outra pessoa por um preço acordado entre vocês.
Exemplo. Para simplicidade, vou dizer US10Y para me referir ao Treasury Note de 10 anos de duração. João comprou um US10Y do Governo Americano com um valor de face de $1000 e cupom de 10% ao ano. Passado alguns meses, João decide vender o título, e Maria se interessa por essa venda. Como João precisa liquidar rapidamente o título para quitar seu carro, ele concorda em vender o US10Y para Maria por $900.
Consegue perceber como o Yield difere da taxa de juros do título? Para Maria, esse título custou $900 mas ainda tem valor de face de $1000 que ela receberá quando esse título vencer, então os pagamentos que caem na sua conta ainda serão de $100 por ano, mesmo tendo pago $900 no US10Y. Ou seja, o yield para Maria seria de $100/$900 = 11,1% ao ano.
O raciocínio é o mesmo para as Treasury Bills. João, ao comprar uma Bill de 3 meses por $97 que no vencimento pagará $100, ele está comprando um título de com taxa fixada em 12% ao ano, mais ou menos. Mas se Maria comprar esse título de João por $99, o yield desse T-Bill de 3 Meses (ou US03M) será algo em torno de ($100 - $99)/$100 = 4% ao ano, pois esse título ainda tem valor de face de $100 que será pago ao dono do título.
Lembre-se, aqui eu faço algumas aproximações grosseiras, só para dar uma ideia de como as coisas funcionam.
Ótimo, entendemos agora como o yield é calculado, tanto para títulos de médio/longo prazo (T-Notes) quanto para títulos de curto prazo (T-Bills) e temos todo o conhecimento técnico para fazer as contas e ganhar dinheiro com isso. O ponto importante agora é interpretar esse indicador:
O que faz o yield cair? Aumento no valor de mercado (ou preço) do título.
E por quais motivos isso pode acontecer? Vários.
Um deles é oferta e demanda. Lembra quando discuti isso em outros artigos? Que o preço de um bem é determinando pela quantidade de pessoas querendo comprá-lo e a quantidade de pessoas querendo vendê-lo? Bom, nesse caso, quando as pessoas acham que o mercado de ações está cada vez mais instável, elas correm para "céus seguros" (safe heavens) onde o dinheiro delas ficará protegido e será relativamente bem remunerado. Esse "céu seguro" costuma ser o T-Note de 10 anos. Com o aumento pela procura desse título, seu valor de mercado, naturalmente, vai subir, causando a queda do yield desses títulos. Quanto essa queda acentua-se muito e passa a ser menor do que a da T-Bill de 3 meses, ocorre essa inversão de juros.
Pode-se interpretar essa queda como "Investidores acham que o risco de curto prazo está maior que o risco de longo prazo, por isso preferem nesse momento título seguros de vencimentos longos, pois o custo de manter o dinheiro imobilizado por mais tempo é menor do que o custo de perder dinheiro em bolsa".
Então, aí temos. Uma breve explicação da curva de juros americana e como ela normalmente prevê crises. Hoje, essa diferença está em 1,435, ainda relativamente seguro. Mas se olharmos no detalhe, pode-se ver que essa diferença recentemente engrenou uma tendência de queda, desde Abril, é um ponto de atenção.
O segundo indicador é um coincidente, o crescimento ano-sobre-ano do PIB trimestral norte americano:

Bom, como diz a TACE (Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos), o PIB refletiu o pior momento econômico da pandemia de COVID para os EUA. O primeiro semestre de 2020 foi o pior semestre para economia americana desde o início da série histórica em 1948. Mas desde o final de 2015 já vinha sendo demonstrada uma desaceleração da economia americana, com alguns períodos de relativa pujança. Coincidentemente, foi quando o FED começou a subir paulatinamente a taxa de juros, ate o início de 2019, quando ele resolveu estabilizar a taxa de juros. Olhando no detalhe, a redução que ocorreu em 2019, casa perfeitamente com a última alta do PIB pré-covid:

Novamente, olhando a visão longa do PIB, ele vinha em tendência de desaceleração desde 2015. Novamente, não muito animador.
Por último, quero mostrar a taxa de desemprego norte americana.

Novamente, vemos o comportamento clássico de desemprego durante uma recessão ou depressão econômica. Ele tende a cair antes dos crashs e é o último indicador a voltar para patamares pré-crise. Mas, algo me deixa inquieto sobre esse indicador. Você consegue identificar o que é?
Na 11 recessões americanas até 2020, o desemprego foi se elevando gradualmente a partir do início da recessão. Em 2020, houve um pico de desemprego, o maior da série histórica, seguido por uma redução igualmente rápida nesse indicador. Historicamente, isso nunca aconteceu em mais de 70 anos de registros, o que nos leva à segunda parte desse artigo.
Mas antes de entrar na segunda parte, preciso expor meu veredito para o ciclo americano: esses indicadores mostram um momento de expansão da economia com talvez um topo começando a se formar, conforme mostrado na diferença das taxas de Treasuries.
Parte 2: Todo Poderoso FED.
Agora é a parte que fica chato. Vamos discutir o que o FED tem feito. Primeiro, é importante entender que, diferentemente do Banco Central do Brasil, o FED trabalha para manter as taxas de juros dentro de uma banda, não numa meta. Por isso é comum alguns dizerem que o juros dos EUA está em 0% ou em 0.25%, pois a banda alvo do FED é de 0% a 0.25%. Sem mais delongas, vamos começar lá em Janeiro de 2016, logo após o FED começar a ascensão de taxas de juros. Ele diz o seguinte: "O crescimento econômico desacelerou no fim do ano passado (2015)".

Nessa mesma carta, o FED menciona a elevação da taxa de juros na banda entre 0.25% e 0.5%. Na carta de Março, que foi a reunião seguinte, diz-se que a inflação está abaixo da meta e subentende-se que isso não era o cenário esperado, ainda dizendo que "o futuro da taxa de juros vai depender das próximas reuniões" e que "haverá continuidade do programa de quantitative easing até que a taxa de juros esteja a 'meio caminho andado' para normalização", numa tradução livre.

Em setembro de 2016, o discurso do FED continuava o mesmo: Vamos continuar da forma como está até termos sinais de inflação, injetando liquidez de forma controlada e mantendo a inflação abaixo da meta.
Em dezembro, ele diz que a inflação ainda está abaixo da meta de 2% mas que a economia da sinais de melhora, logo, a taxa de juros deve ser acrescida de 0.25%, para a banda entre 0.5% e 0.75%.
Em março de 2017, o FED diz que vê a inflação se estabilizando em 2% ao ano e decide por subir mais um pouco a taxa de juros para entre 0.75% e 1%. Porém, não é uma inflação generalizada, é simplesmente uma alta localizada de alimento e energia.

O tom do FED ao longo de 2017 foi mais ou menos o mesmo, com a última reunião de 2017 aumentando a banda para 1% a 1.5%, em linha com a necessidade de manter as taxas de juros reais minimamente atrativas. Em Março/2018, na segunda reunião do Ano, o FED diz subir a taxa para 1% até 1.75%, mesmo afirmando que "a inflação geral sem levar em conta a de alimentos e energia está abaixo de 2%".

Em Junho/2018, o Fed mais uma vez sobe a banda para 1,75% a 2%. Em setembro, de 2% a 2.25%. Em Dezembro, mais uma subida, para 2.25% a 2.5%. Essa taxa se manteve até Junho/2019, sempre com a mesma explicação: "a inflação geral sem levar em conta a de alimentos e energia está abaixo de 2%". Faremos uma breve pausa aqui, para eu apontar algumas inconsistências que eu acredito serem importantes: Nesse momento, fazia 3 anos que o FED vinha dizendo: "inflação sem alimentos e energia está abaixo da meta. Por isso, vamos subir a taxa de juros". Ora, se a inflação está abaixo da meta, para que subir as taxas de juros? Penso eu que para começar a remover liquidez do sistema e normalizar os níveis de reserva e juros à patamares realistas. De fato, foi isso que começaram a fazer, reduzindo os ativos do FED de USD4.8 trihão para cerca de USD3.8 trilhão.
Mas entra, então um evento inesperado. O equivalente americano ao CDI brasileiro, o Secured Overnight Financing Rate (SOFR), sobe dos seus regulamentares 2.4% ao ano para incríveis 5% ao ano: 100% de alta em um dia. Que investimento hein?

Mas o que significa essa alta? É difícil dizer, mas como essa é a taxa que os bancos americanos usam para fazer empréstimos de quitação entre os saldos de depósitos e saques do dia, é razoável conjecturar que algum dos bancos que operam com essa taxa teve um problema de solvência nesse dia (17/09/2019). "Mas por quê, Pedro?". Essa taxa, como já disse, é usada para liquidar e ajustar os saldos entre depósitos e retiradas entre os bancos. Se o Bancão Azul tem mais saques que depósitos, porém o Bancão Vermelho tem mais depósitos que saques, o Bancão Vermelho empresta dinheiro pro Bancão Azul finalizar o dia no zero a zero; onde saques são iguais aos depósitos.
Mas se essa diferença é muito grande, indica que o Bancão Azul não soube administrar corretamente sua liquidez, então ele corre o risco de ficar insolvente e por consequência falir, causando um efeito cascata no sistema econômico (nota-se que, caso isso ocorra, o governo não deve tomar ação alguma para tentar tornar os bancos líquidos novamente, pois isso é um movimento natural de mercado: o crédito ruim deve ser expurgado para dar espaço para que novas ideias mais rentáveis e seguras surjam. Quem disse isso é Ludwig Von Mises, não eu).
Já mencionei em outros artigos o que acontece quando o Banco Central sobe juros: crédito fica mais caro e as empresas pagam mais juros, aumentando o risco de falência. Isso também se aplica aos bancões e pode ter sido o que os mercados viram nesse dia.
Na reunião do FOMC finda em 18/09/2019, o FED volta a baixar as taxas de juros, mas com a mesma justificativa de antes (inflação localizada em alimentos e energia) e sem absolutamente nenhuma menção à esse evento. Será que não viram ou será que resolveram não comentar?
A partir dessa reunião, entramos em outro período de retração das taxas de juros do FED. E já em outubro, numa reunião emergencial do FED, foi dito que o balanço do BC americano não ficaria abaixo do nível de setembro desse ano, e que ele intensificaria as operações de recompra de títulos do Tesouro americano no mercado.
Quando houve a sinalização de que as taxas mater-se-iam em 1.5% a 1.75%, na reunião de dezembro/19, veio o Cisne Negro da Década: a pandemia de covid. Na primeira reunião de Março/20 o FED é claro em dizer que teme que o coronavirus impacte severamente a economia americana, derrubando as taxas para 1% a 1.25% (0.50% de queda) e na sua segunda reunião no mesmo mês, em 15/Março, eles tomaram uma medida drástica, jogando novamente em 0% a 0.25% a taxa de juros.
Na terceira reunião ocorrida em março, eles ligam a impressora na potência 12:

O FED é claro em dizer que: "agora a p***a ficou séria". Em tradução: "O Federal Reserve vai continuar a comprar títulos do tesouro americano e dívidas garantidas por hipotecas na quantidade necessária para apoiar o funcionamento regular do mercado e a transmissão de políticas monetárias para condições financeiras mais abrangentes. O Comitê também vai incluir na suas compras, dividas comerciais garantidas por hipoteca"
Traduzindo para o português claro e simples: o FED vai comprar tudo que for título de renda fixa, no volume que for necessário, para garantir a liquidez dos agentes ligados ao mercado financeiro. Não obstante, o seu balanço praticamente duplicou em 4 meses, indo para cerca de USD 7.5 trilhões de dólares (se você não entende exatamente o que isso significa, sugiro ler este artigo meu).
Em todas as reuniões a partir dessa reunião de março, a mensagem do Fed foi a mesma: mercados impactados, recuperação lenta, fluxo de crédito normalizando aos poucos, inflação transitória, por isso não alterou-se a taxa de juros.
Por fim, faço a reflexão com o título da sessão: Todo-Poderoso Fed. Será que ele é tão poderoso assim? Vimos claramente que houve um impacto absurdo do covid, mas se pensarmos que a economia americana era um avião com duas turbinas, uma delas já tinha ido embora muito antes da outra falhar. E a ação do FED em diminuir os juros mesmo sem sinal de redução de inflação, mostra justamente que o sistema financeiro americano já estava deveras prejudicado com a quantidade de dólares injetados no sistema de 2008 a 2015. O Covid veio só pra destruir a segunda turbina, e mandar a economia em uma espiral descendente por alguns meses.
Apenas para embasar o que digo, a inflação americana no período analisado (2016 - 2019) ficou de fato em 2% ao ano. Se por um lado o Fed fez um bom trabalho em seguir seu mandato (estabilidade de preços e pleno emprego), por outro, ele gerou um problema financeiro de proporções homéricas.
Assim, não há muitas perspectivas de uma alta de juros no curto prazo
Parte 3: O mercado acionário americano.
Bom, feita essa análise dos movimentos do Fed quero conjecturar o que acontecerá com o mercado americano nos próximos anos. Observe que isso não é uma previsão, isso não é uma recomendação de investimento muito menos uma tentativa de incutir medo em você que está lendo: é apenas uma mera tentativa de me preparar para cenários diferentes e fornecer um pouco de conhecimento para que você também consiga se preparar.
Passado o grosso da pandemia, vimos uma recuperação acentuada dos mercados acionários no mundo inteiro.

Alguns exemplos para mostrar que a recuperação financeira não foi um fenômeno exclusivo dos EUA, porém esse foi o que teve a recuperação mais forte. Vejam o índice de tecnologia da economia americana (SPX), comparado com o IBOV do Brasil, FTSE100 da Inglaterra e SHCOMP da China.
Grande parte desse crescimento se deve às taxas negativas de juros reais do FED. É muito barato se endividar, e com as sinalizações do FED que ele continuará comprando títulos de renda fixa à mercado, existe muito pouco risco em se endividar. Isso pode ser visto ao analisarmos que o CapEx do S&P500 aumentou cerca de 36%, ao comparar os 12 meses que acabaram em 2021Q2 contra os 12 meses que acabaram 2020Q2.
Ao observarmos as maiores empresas do mundo (aquelas listadas nas bolsas americanas com valor de mercado maior que 500 bilhões de dólares), vemos duas situações interessantes. A primeira é que elas não estão muito alavancadas e correm muito pouco risco de não conseguir pagar suas dívidas:

Debt/Equity é uma medida de o quão alavancada são as empresas. Se esse valor é maior que um, quer dizer que os passivos da empresa (empréstimos) são maiores que seu patrimônio líquido. Isso não necessariamente é preocupante por si só, pois existem outras métricas a serem avaliadas. O Net Debt/EBITDA pode ser calculado a partir da tabela, e também vemos múltiplos baixos e em alguns casos negativos (quando a empresa tem bastante dinheiro em caixa isso acontece).
Por último, o Current Ratio, que é a divisão dos ativos pelos passivos. Isso nos dá a capacidade da companhia de liquidar todas as suas operações e pagar os valores devidos a todos os acionistas e credores. Vamos que essas companhias estão relativamente saudáveis em termos de endividamento e que é pouco provável que elas venham a falir no médio prazo.
O que é preocupante é essa segunda visão:

Bom, temos o seguinte: um mercado de ações extremamente superprecificado. Esse indicador P/E significa Price to Earnings, ou seja, o preço da ação dividido pelo lucro por ação. Como normalmente usa-se lucro anual para essas projeções, você pode interpretar esse indicador da seguinte forma: quando custa pra mim um dólar de lucro da Microsoft? No preço de mercado no momento em que montei essa tabela, custava 37,82 dólares. Inversamente, você pode se perguntar, quantos anos vai demorar para eu ter meu dinheiro de volta? No caso da Tesla, 657 anos no momento em que fiz essa tabela.
O momento é de euforia, mas como se trata de empresas de tecnologia, é difícil dizer se está caro ou barato. Para minha visão como investidor, eu acho um pouco longo prazo demais pensar que só vou ter meu dinheiro de volta em 70 anos se eu investir na Amazon. Provavelmente eu já terei morrido daqui 70 anos.
Se por um lado, essas empresas parecem financeiramente saudáveis, por outro, o mercado está pagando muito caro pelos lucros futuros delas, em parte por que elas tem perspectiva de crescimento muito grande, mas também pelo fato de que a renda fixa não paga nem a inflação. E isso é o cenário nos EUA, no Brasil, na Europa, em grande parte do mundo os juros reais estão
E num futuro não tão distante (bem menos que os 30 anos de retorno que o preço atual dessas companhias sugere), o FED vai subir as taxas de juros. Isso se traduz diretamente em queda nos preços das ações, já que o valor presente dos fluxos de caixa futuros da empresa tende a diminuir, fazendo com que o gap de desempenho financeiro de renda fixa e renda variável diminua, principalmente se atrelado a uma garantia forte, como o Governo dos EUA. "Ahh, mas o governo dos EUA nunca vai quebrar?" Olha, muito provavelmente não, por que mais da metade da dívida mundial é denominada em dólares e por que eles são simplesmente a maior potência militar da atualidade. Se eles quiserem dar calote no mundo, quem vai impedir?
Assim, numa eventual escalada de juros do FED, os gestores de fundos terão que fazer escolhas entre sair cedo de suas posições e correr risco de marcação a mercado com os títulos de renda fixa, ou deixar pra sair mais tarde, amargando um prejuízo em posições acionárias mas ficando mais bem posicionado pra uma queda futura de juros. De qualquer forma, o médio prazo da bolsa americana é andar de lado. Longo prazo é sempre pra cima (pelo menos é isso que a história mostra).
Parte 4: E nós, emergentes brasileiros?
Todos nós acompanhamos o dólar batendo próximo de 6 reais no meio de 2020. Isso foi causado, entre outros fatores, pelo diferencial de taxa de juros dos EUA e do Brasil. E note, não é somente o diferencial de taxa de juros nominal, é o diferencial de taxa de juros real.

Aqui eu calculei os juros reais do Brasil em diferentes períodos, subtraindo a inflação medida pelo IPCA da Taxa Selic. Nota-se que hoje a inflação está sendo um problema para nós, e para ver como isso impacta no câmbio, observe o gráfico abaixo

Os candles indicam a cotação do Dólar em função do real. Dessa forma, é possível identificar como o mercado cambial se posiciona frente ao guidance do Banco Central do Brasil. Pode-se ver quando o BC reduz as taxas de juros, o dólar se fortalece perante ao real, e vice versa.

E aqui vemos a taxa de juros real da economia americana.
Vamos nos colocar na situação de um gestor internacional de fundo com bilhões de dólares sob sua gestão em Maio de 2020: Pandemia chegou com tudo no mundo inteiro. Mercados em altíssima volatilidade, juros próximos de 0 ou negativos no mundo inteiro, pra onde você vai?
A resposta natural é para um ativo com baixa volatilidade e alta liquidez: tesouro americano.
O racional é simples: o Governo americano tem um discurso mais atraente de combate a pandemia, espaço fiscal para fazer medidas emergenciais e é uma das maiores fontes de capital do mundo, ao passo que o Discurso do Brasil é incerto e muito pautado ideologicamente, com pouco espaço fiscal e uma moeda fraca. Você iria preferir ficar no Tesouro Selic pagando uma taxa real de 0.6% ao ano ou ir para o tesouro americano e receber -1% ao ano com a garantia de receber seu dinheiro de volta, não importa o que aconteça?
Quem escolheu a segunda opção, se deu bem, pois hoje os títulos do tesouro brasileiro mais líquidos remuneram -4.1% ao ano, enquanto os títulos do tesouro americano remuneram -2.3% ao ano. Bem atrativo não acha? É metade do prejuízo (e não o dobro da rentabilidade hehe).
Mas o real está bem barato em relação ao dólar. Se por um lado as taxas de juros desvalorizaram o real e a renda fixa não vale a pena, para o investidor quem olha a bolsa brasileira de fora vê centenas de "penny stocks". Tenho certeza que você já viu aquele cara da Empíricus falando que a bolsa brasileira tem a "A ação mais barata do mundo" que "todos os milionários estão comprando". Pura Balela. A bolsa brasileira inteira está barata para quem tem renda em dólar ou euro. Na minha opinião, os motivos pelos quais o IBOV não está decolando são a sinalização do BC de alta de juros no curto/médio prazo e o risco das eleições de 2022, junto com risco fiscal e reforma tributária. Meu cenário base daqui pra frente é o seguinte: BC vai continuar elevando a Selic, e no meu cenário ela vai se estabilizar entre 6.5% e 7.5% em meados de 2022. Isso vai ser o suficiente para voltarmos a ter uma taxa de juros real positiva e reduzir a volatilidade cambial. Depois, o FED vai começar a subida de taxas em 2022/2023, fazendo com que ocorra uma correção no mercado acionário americano trazendo os valuations para valores menos insanos e mais aderentes à realidade. Isso pode gerar uma boa movimentação de dólares voltando para os EUA, o que força uma correção na bolsa brasileira e uma apreciação cambial, a depende do estoque de munição do BC. E a alocação de carteira agora muda também: não é preciso liquidar completamente as posições acionárias, mas está na hora de começar a fazer caixa. Tem uma bolha grande se formando, e, ao invés de pensar como uma crise, pense que é como uma oportunidade. Você tem a chance de se preparar e montar um bom colchão de renda fixa relativamente líquida, para poder comprar bolsa americana ou brasileira quando ela corrigir. Além disso, sempre compre dólares, todo mês compre um pouquinho, por que o dólar só tem um movimento possível no longo prazo: para cima
Ufa, acho que é isso por esse artigo. Fico à disposição para tirar dúvidas e corrigir algo que esteja conceitualmente errado. Abraço, Pedro




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