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O Efeito Cantillon e a inacreditável impressão de dólares

20 de abr. de 2021
6 min de leitura

Atualizado: 22 de abr. de 2021

Quem foi Cantillon e por que ele é importante? Richard Cantillon foi um economista irlandês do século XVII-XVIII que escreveu o primeiro grande tratado de economia intitulado "Essai sur la Nature du Commerce en Général" ou "Ensaio sobre a Natureza do Comércio em Geral". O título é em françês pelo mesmo motivo em que grande parte das publicações de economia do século XIX-XX estão em alemão e as publicações da atualidade estão em inglês: é a língua da potência mundial da época.

Ele foi um dos primeiros a distinguir entre moeda e riqueza, definindo esta como "nothing but the maintenance, conveniencies, and superfluities of life", ou seja, riqueza é tudo aquilo que usamos para nos manter vivos, que nos trazem conveniência ou que sejam supérfluos na nossa vida. Trazendo pros dias de hoje, é a mesma coisa que dizer que riqueza é comida, serviços e lazer.


Mas afinal, o que é o Efeito Cantillon? É o movimento que os preços fazem quando um banco central cria ou remove dinheiro do mercado. Fica mais fácil de visualizar quando entendemos a economia como uma cascada de decisões através de um gedankenexperiment. Vamos à ele.

Numa simplificação grosseira, vamos imaginar uma economia composta por bancos, indústrias de extração de ferro, de refino de ferro, de construção de carros, concessionárias de carros e, é claro, pessoas (tanto poupadores quanto consumidores). Também vamos supor que o maior banco dessa economia se tornou insolvente e precisa ser resgatado pelo Banco Central (ele não deveria ser resgatado, mas não vou entrar nessa discussão agora). Assim, o Banco Central compra diversos títulos de dívida que o Bancão S/A tinha para torná--lo solvente de novo (ou seja, para que ele consiga atender às suas obrigações de empréstimo de capital). Para entender melhor o fluxo de capital nessa economia, vamos analisar o diagrama abaixo:





Os poupadores emprestam dinheiro ao Bancão S/A, que por sua vez usa esse capital para financiar a Mineiradora e a Beneficiadora. A Beneficiadora compra as matérias primas da Mineiradora (ferro) e o transforma em algo utilizável pela Automotiva S/A. A Vendedora utiliza a receita das vendas de carros provenientes dos consumidores para comprar mais carros da automotiva. Assim, a cadeia está completa e o poupador recebe o dinheiro dos consumidores depois que o empréstimo que ele fez ao banco chega à maturidade (isso não está demonstrado no diagrama). E o que acontece quando o Banco Central compra as dívidas do Bancão S/A para evitar que ele quebre a cadeia de crédito? Vamos recorrer à Lei Aurea da Economia: Oferta e Demanda. Quanto maior a demanda de algo, maior o seu preço, quanto maior a oferta, menor o seu preço.


O Banco Central vai inundar o Bancão S/A com dinheiro, logo, a oferta aumenta e o preço de se emprestar dinheiro (juro) para a Mineiradora e para a Beneficiadora diminui. Assim, a Beneficiadora pode estocar mais materiais para revenda, já que o custo de oportunidade diminui, aumentando a oferta de ferro beneficiado para a Automotiva, fazendo com que os preços de ferro beneficiado caiam. Adivinha o que acontece?

A Automotiva vê que seu custo de aquisição também diminui, podendo produzir mais carros com a mesma receita. O mesmo raciocínio se segue para a Vendedora, que vai colocar mais carros em estoque para venda ao consumidor. Se seguirmos esse raciocínio cegamente, podemos chegar à conclusão de que o consumidor vai comprar mais carros por que seu preço está menor, mas estaríamos cometendo um erro lógico nessa já grosseira simplificação do mercado. Podemos utilizar aqui um conceito de microeconomia chamado elasticidade de preço, ou no caso, a inelasticidade de preço: a variação do preço do carro não corresponde igualmente a uma variação na demanda. O consumidor médio terá um ou dois carros, e fará a substituição deles num intervalo mais ou menos regular. O consumidor não se importa muito se o carro está custando R$20.000,00 ou R$18.000,00 ou R$22.000,00: se o carro dele estiver funcionando e em bom estado, ele provavelmente não vai na concessionária trocá-lo só por que o preço diminuiu (ainda mais por que trocar de carro muito rápido gera prejuízo para o consumidor).


Qual a implicação disso? O estoque começará a se acumular na Grande Vendedora. Estoque acumulado pode ser contabilmente equiparado a prejuízo, pois quando o dinheiro fica parado, ele perde valor ao longo do tempo (culpa da ideia de que inflação é bom para a economia por que gera mais riqueza).


Havendo prejuízo, a Grande Vendedora vai demandar menos carros da Automotiva, que vai demandar menos ferro beneficiado da Beneficiadora, que vai demandar menos ferro da Mineiradora. Efetivamente, as receitas diminuíram e os preços aumentaram para compensar pelo estoque parado e, apesar do crédito estar mais barato, é possivel que tanto a Beneficiadora quanto a Automotiva não consigam repagar o Bancão S/A, pois o aumento na quantidade de dinheiro na economia não se traduziu em um aumento da demanda. E mais, mesmo que a demanda permaneça inalterada, o custo de estoque aumentou, causando um aumento no preço dos carros.


Via de regra, numa economia qualquer, todos os custos são pagos exclusivamente pelo consumidor final, mesmo que indiretamente, pois é a pessoa física em si que voluntariamente vende o seu trabalho, seja ele físico ou mental, em troca de uma remuneração financeira. Isso se deve ao fato que pessoas jurídicas (empresas) são apenas intermediadoras de capital: elas identificam que consumidores estão demandando alguma coisa, fabricam essa coisa e vendem para os consumidores, tirando uma parte para os acionistas da empresa e outra parte para pagar os fornecedores. Mas a parte que é retirada é apenas o lucro (receita menos despesas), lembrem-se disso. O lucro vai pra pessoa física controladora da pessoa jurídica, o custo é repassado do consumidor para o fornecedor.


Então, qual é a consequência nefasta do Efeito Cantillon? Simples. O dinheiro vale muito mais para o primeiro recebedor, pois ao invés do dinheiro ser distribuído igualmente entre todas as camadas da economia, um grupo seleto (no caso os banqueiros e seus devedores) recebe grande parte desse dinheiro sem ser depreciado pelo aumento de preços (inflação). Quando essa quantidade de dinheiro injetado na economia finalmente chega ao consumidor final via salários, os preços já aumentaram, pelos motivos explicados anteriormente. Isso também é chamado de imposto inflacionário, a forma mais perversa possível de reduzir o poder de compra da parte mais pobre da população.


Agora, para minha sessão de opinião: me parece que os Bancos Centrais e Governos do mundo todo durante a Pandemia do Covid-19 sabem desse efeito e tomaram medidas para tentar atenuar o efeito, através de auxílio direto a pequenos negócios e coronavouchers. Vamos pegar por exemplo os Estados Unidos da América. O M1 do FED, literalmente, mais que triplicou em apenas um mês, de Abril/20 para Maio/20, chegando no final de 2020 à incrível marca de DEZOITO TRILHÕES DE DÓLARES em circulação, juntamente com a maior recompra de ativos da história do Fed, deixando seu balanço em incríveis 7,7 trilhões de dólares em ativos (o segundo momento mais alto foi entre 2012 e 2018, onde o Fed atingiu cerca de 4 trilhões de dólares em ativos). Acho que a mente humana não tem muita facilidade em compreender a magnitude do trilhão. Vou dar alguns exemplos aqui para entendermos o tamanho dessa impressão.

  • 1.000.000.000.000.

  • São 12 zeros depois do um.

  • Em média, uma pessoa vive 2 bilhões de segundos (72 anos).

  • Com um trilhão de metros, você vai e volta da Lua: duas mil e seiscentas vezes.

  • Com um trilhão de moedas de 1 real, você consegue fazer 220 mil pilhas do tamanho do monte Everest (que tem 8,850 metros)

  • Com um trilhão de dólares, você consegue comprar 4 bilhões de Porsches 911 GT3 RS com todos os opcionais.

  • Com um trilhão de quilos de combustível de foguete, o Elon Musk consegue lançar 9 milhões de foguetes

  • Se você tiver um trilhão de dólares e gastar 10.000 dólares por dia durante 90 anos, ainda restarão 999,6 bilhões de dólares como herança.

Entende agora por que é preocupante o Fed ter injetado na economia cerca de 14 trilhões de dólares? Voltando no efeito Cantillon: a primeira vista, a distribuição de coronavouchers para as pessoas pode servir para aliviar o efeito do primeiro recebedor, mas a quantidade de dinheiro dado diretamente às pessoas não supera a marca de 500 bilhões. Ou seja, apenas 3,5% do dinheiro impresso foi diretamente para o consumidor final. Os outros 96,5% estão à deriva na economia, causando aumento de preços que deverão ser pagos pelo Joãozinho da Esquina que vende HotDog no Central Park.

"Ahh, mas a inflação está controlada nos EUA". A variação mês a mês da inflação americana já está no patamar mais alto desde 2012. E só tende a aumentar. O cenário no Brasil é parecido, porém mais grave, pois com o nosso câmbio depreciado, a pressão inflacionária aumenta bastante. E o que fazer agora? Bom, você pessoa física residente no Brasil: compre dólares. Você que já tem dólares: não deixe o dinheiro parado na corretora. Com a inflação em alta, o dinheiro parado perde valor ao longo do tempo. Coloque num ETF de TIPS (Treasury Inflation Protected Security, o IPCA+ do governo americano). Compre ações de empresas sólidas (Coca Cola, Apple, Microsoft, Amazon, J&J). Compre criptos. Diversifique, reduza exposição à risco desnecessário. Tenha seu caixa em uma aplicação de liquidez diária, mas com inflação em alta a famosa frase "Cash is King" vira "Cash is Trash". Por hoje é só. Pedro Gaiarsa.

 
 
 

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