Sobre Inflação, Deflação e Bancos Centrais - Resposta
Este é um texto resposta à Carta do Condado do dia 23/01/2021. Aos que não conhecem, a Carta do Condado é uma newsletter semanal sobre economia e mercados elaborado pela página @farialima.elevator do Instagram. Resolvi escrever sobre essa edição em específico para revisar alguns dos conceitos apresentados pelo autor, olhando-os sob a ótica da economia austríaca. Sem mais delongas, vamos à elas.
Logo no começo da carta, define-se a inflação como "a variação de um índice de preços previamente definido". Primeiro, antes de definir o que é inflação, temos que entender o que é inflação. Todos nós sofremos com a inflação no dia a dia, alguns mais do que outros. A inflação causa o aumento de preços de uma economia, não necessariamente acompanhado por um aumento no poder de compra. Pela definição dada na Carta, se a variação do IPCA aumenta em 10% e o poder de compra aumenta em 20%, efetivamente nada muda para a população. Os preços estão 10% maiores, e os salário 20% maiores (numa simplificação grosseira). Mas, na vida real, fora das mentes brillhantes de economistas, o que acontece não é bem assim. Normalmente, quando tem-se inflação, ocorre uma diminuição do poder de compra, ou seja "100 reais hoje compram menos coisas que 100 reais a um ano atrás".
O que ocasiona essa diminuição do poder de compra?
A INFLAÇÃO E O BANCO CENTRAL
Para responder à essa pergunta, precisamos entender o processo de criação de moeda pelos bancos. Todos os bancos tem uma conta corrente junto ao Banco Central e qualquer banco, no mundo inteiro, cria dinheiro a partir do registro contábil de um depósitos no seu passivo (uma obrigação de entregar dinheiro) como contrapartida a um empréstimo registrado no seu ativo (onde o dinheiro do passivo está aplicado). Numa economia onde não há papel-moeda infinito, isso pode levar alguns bancos a quebrarem se eles descasarem os prazos de liquidação dos ativos e passivos, por exemplo, quando o Banco usa depósitos a vista como passivos para hipotecas de casas: quando o cliente vai sacar seu dinheiro, ele descobre que esse dinheiro não está disponível e o banco não tem como honrar seu compromisso. Essa é a famosa "insolvência".
E qual a influência do Banco Central nisso? Pense no seguinte caso: uma crise atingiu o país e alguns milionários precisam transferir seu dinheiro do "Bancão S/A" para a "Corretora S/A" para cobrir posições vendidas no mercado acionário. Contabilmente, isso aconteceria com a transferência de recursos que estão no passivo do Bancão para o passivo da Corretora. Mas, o Bancão não se preparou pra uma crise dessa intensidade, e todos os seus depósitos estão comprometidos com empréstimos de longo prazo. Assim, o Bancão está numa situação de insolvência. Banco Central ao Resgate! Não pode deixar o Bancão quebrar. Imagina o que aconteceria se os banqueiros tivessem que arcar com as consequências das suas decisões (spoiler, o sistema financeiro seria muito mais robusto).
Vem então o Banco Central, que tem como objetivo previsto na Lei 4595, Artigo 3°, Inciso VI "zelar pela liquidez e solvência das instituições financeiras", salvar o Bancão que não soube gerenciar seus riscos. Como, então, o BC vai cumprir com seu objetivo legal? Entre outras: emissão de papel-moeda, seja ele eletrônico ou físico, e isso é feito da maneira mais direta e simples possível.
Como BC é a única instituição capacitada a emitir moeda, todo o papel moeda emitido no país é um passivo do Banco Central (o BC tem que entregar dinheiro a todos os bancos que quiserem sacar papel moeda depositado na sua conta) e, assim como toda companhia, o ativo do banco tem que ser igual a seu passivo. Em geral, o ativo do Banco Central é composto por títulos de dívida do Tesouro Nacional. Assim, para salvar o Bancão, tudo que o banco central precisa fazer é comprar um título de dívida do ativo do Bancão e creditar o valor presente desse título na conta de reserva do Bancão junto ao BC. Isso é feito através de, literalmente, um registro contábil. Nas tabelas a seguir, esse processo fica mais claro.

Agora que entendemos como o Banco Central cria dinheiro na economia, podemos utilizar a Lei da Oferta e da Demanda para especular o que acontecerá com os preços nessa sociedade. No exemplo dado, a quantidade de dinheiro facilmente conversível em papel moeda aumentou de R$1.000,00 para R$1.063,00, cerca de 0,63%. Variações assim pequenas tem muito pouca influência no cômputo geral da economia, mas imagine isso sendo feito em larga escala, com centenas de bilhões de reais (ou no caso da Crise de 2020, R$1.2 trilhão - isso são 11 zeros - em notação científica 1,2x10¹² ou R$1.200.000.000.000,00). Assim, quando a injeção de liquidez é muito grande, tem-se uma maior disponibilidade de dinheiro no mercado, para a mesma quantidade de bens e serviços. Se antes a sociedade tinha 100 reais para gastar com 100 ovos de galinha, agora ela tem 200 reais para gastar com 100 ovos de galinha.
Naturalmente, cada ovo agora vai parecer mais caro, mas não foi a quantidade de ovos disponível ou um aumento da demanda por ovos que fez seu preço aumentar, foi o aumento da oferta de dinheiro no mercado. Isso, segundo os economistas austríacos, é a inflação: o aumento da quantidade de dinheiro disponível e sua subsequente desvalorização frente aos outros bens. O aumento de preços é simplesmente uma consequência da desvalorização do dinheiro por conta da maior oferta dele no mercado.
DEFLAÇÃO E DESEMPREGO
O segundo ponto que quero abordar é quando o autor diz que a deflação pode desencorajar os empresários a produzir, aumentando o desemprego, por isso é necessário ter inflação, então vamos entender como funcionam os agentes econômicos durante os ciclos de inflação e deflação. Como definimos anteriormente, a inflação é o aumento da quantidade de dinheiro que causa a diminuição do poder de compra, logo, a deflação é a diminuição da quantidade de dinheiro que causa o aumento do poder de compra. O que isso significa sob a ótica empresarial? Vamos analisar uma das fórmulas mais simples para se decidir sobre a viabilidade econômico-financeiro de um projeto ou empresa: o fluxo de caixa descontado (ou DCF - Discounted Cash Flow). Na formula abaixo, o DCF é o valor presente do projeto (por quanto ele deve ser vendido, por exemplo), CF é o quanto de dinheiro será gerado pelo projeto, r é a taxa de desconto utilizada e n é o número de anos.

Geralmente, a taxa de desconto utilizada depende de vários fatores, entre ele o próprio custo de capital da empresa. Em geral, seria vantajoso investir em um novo projeto a rentabilidade dele for maior do que a Taxa Mínima de Atratividade, que pode ser considerado um investimento livre de risco. Se esse investimento livre de risco estiver pagando 10% ao ano, o presidente vai assinar o projeto se ele der um lucro líquido de 10% ao ano, ao longo da duração do projeto. Essa TMA costuma ser dada em termos nominais. Para termos em termos reais, precisamos descontar a inflação usando a seguinte fórmula, onde i é a taxa nominal, pi é a inflação e r é a taxa real:

Vamos então entender qual é o comportamento de uma empresa quando a inflação está alta (pi = 5%) e a TMA Nominal é de 10%. Também vamos supor a existência de um projeto que vai demandar 1000 reais de investimento, e vai gerar 1000 reais por ano do segundo ao quinto ano de existência. A taxa de desconto que vamos utilizar, é a TMA Real, para protegermos a empresa do risco inflacionário. Nesse cenário, o projeto tem um valor presente líquido de R$3656,65. E num cenário deflacionário (pi = -5%), temos que lembrar que quanto menor a inflação, menor o Banco Central fixa a taxa Selic, logo, menor é a TMA. Vamos chutar então que, para tentar combater a deflação, o Banco Central fixa a Selic em -0,5% ao ano (isso já é feito em diversos países da Europa, no Japão e nos EUA em alguns momentos). Temos um valor presente líquido de R$3567,73. Basicamente a mesma coisa. Podemos concluir que, sob a ótica empresarial, contanto que a TMA diminua proporcionalmente à inflação, não há muito impacto sobre a geração ou não de empregos, já que alguns projetos continuam sendo igualmente viáveis. Vamos pensar, agora, pela ótica do consumidor. Naturalmente, quando há inflação, há incentivo a gastar dinheiro, pois se você não gastá-lo hoje, amanhã ele valerá menos (basta substituir i por 0 e pi por qualquer número maior que 0 e verá que isso será um número negativo), e, quanto mais é gasto, menos é poupado (pois as pessoas tem um estoque limitado de dinheiro que deve ser dividido entre gastos e poupança).
Agora, num cenário deflacionário, as pessoas são incentivadas a guardar dinheiro, pois simplesmente deixá-lo parado na sua conta corrente gera rendimentos iguais à deflação (novamente, substitua na fórmula um valor negativo para pi e 0 para i). Isso se traduz diretamente em mais disponibilidade de depósitos para os bancos (lembra de como funciona o ativo e o passivo dos bancos?), ou seja, maior quantidade de dinheiro disponível para ser emprestado. Sabemos que quanto maior a oferta de um bem, menor o seu preço. E o que é o preço do dinheiro? Os juros. Logo, num cenário deflacionário, haverá uma redução nas taxas de empréstimo oferecidas pelos bancos, o que pode fazer com que o valor presente líquido do projeto aumente, já que a taxa de desconto para os fluxos de caixa terá a parcela referente ao custo de capital reduzida (os juros estão mais baixos).
Por último, quero finalizar com uma crítica ao IPC-A mostrando por que ele não é um bom indicador de inflação. No resultado do IPCA para 2020, temos uma variação de 4,5%, dentro da meta de inflação do Banco Central. Então, está tudo tranquilo, está uma beleza, o poder de compra caiu muito pouco! Vamos comemorar!!! Não tão rápido. Uma análise detalhada, mostra que a categoria de "Alimentação e Bebidas" aumentou em 14,09% em 2020. Bom... está bem ruim né? Quer dizer que o real desvalorizou cerca de 14% frente à uma cesta teórica de produtos alimentícios. Vamos deixar esse cenário ainda mais desesperador: sabe aquele almoço tradicional do brasileiro, composto por arroz, feijão, uma carne, farofa e salada? É seguro dizer que muitos hoje devem estar passando fome. Cereais e leguminosas (arroz e feijão) tiveram um aumento de 60% em 2020, carnes de 18%, leite de 17%. Em locais como Fortaleza, cereais e leguminosas tiveram um aumento de OITENTA E DOIS POR CENTO no preço. Como o Banco Central se atreve a dizer que a inflação está controlada, quando os preços dos alimentos mais básicos para a população podem ter praticamente dobrado de preço ao longo de 12 meses?
Fica aí mais uma reflexão de como as instituições estatais são ineficientes em cumprir seus objetivos, quando os cumprem.




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