Surfando as ondas - #00
Olá! Como estão? Vou começar uma série em que montarei uma carteira de investimentos teórica para se aproveitar dos ciclos econômicos.
A ideia é mostrar como casar Value Investing com os Ciclos de mercado para seguir as duas regras de investimento de acordo com Warren Buffet:
Não perca dinheiro
Não se esqueça da primeira regra
Farei o acompanhamento da rentabilidade desse portfolio com a ferramenta Kinvo, e, trimestralmente, realizarei um post aqui no blog com os resultados das empresas escolhidas, a conjuntura macroeconômica, se é necessário alguma realocação na carteira, e outras coisas.
Sem mais delongas, vamos à nossa série "Surfando as Ondas #00"
Algumas regras para essa carteira de investimentos:
O capital inicial será de R$10.000,00.
Será feito um aporte anual de R$10.000,00
A carteira pode ter qualquer ativo permitido dentro da ferramenta Kinvo.
Essa carteira é teórica. Nenhuma operação relatada aqui será executada por mim e não deve ser executada por ninguém.
Todas as taxas serão desconsideradas. Câmbio será o utilizado pela ferramenta Kinvo.
Nenhum produto contido nessa carteira é uma recomendação de investimento (nem olha pra mim, CVM, não tô fazendo nada errado).
Parte 1: Análise do Ciclo de Econômico.
Para simplificar um pouco a vida, ao invés de procurarmos por agulhas no palheiro vamos adotar um padrão para registrar o momento do ciclo econômico, e considerar as políticas de bancos centrais e governos para projetar o futuro, fazendo estimativas razoáveis, porém conservadoras nesse momento (mostro o porquê mais a frente). A primeira ferramenta que vou utilizar é o Relógio do Ciclo Econômico. Ele consolida os mais diversos indicadores econômicos, como o Indicador Antecedente de Ciclo Econômico (IACE), Indicator Coincidente de Ciclo Econômico (ICCE), Índice de Confiança Empresarial (ICE), Índice de Confiança da Indústria (ICI), entre outros, onde cada bolinha do gráfico é um indicador.
Esse gráfico é dividido em quatro quadrantes:
Ritmo Forte/Desacelerando: mostra o início da inflexão do ciclo econômico. A economia ainda está numa tendência de crescimento, mas mostra sinais de desaceleração (redução no número de investimentos, redução na taxa de crescimento do PIB, redução na quantidade de empregros criados por mês)
Ritmo Fraco/Desacelerando: mostra a fase de depressão do ciclo, com redução de PIB, desemprego crescente e crédito escasso.
Ritmo Fraco/Acelerando: mostra o início da recuperação econômica, onde o ambiente de negócios começa a melhorar, novas vagas de emprego começam a ser criadas, investimentos voltam a ser feitos, mas ainda não está perto do nível anterior
Ritmo Forte/Acelerando: Economia pujante, investimentos sendo feitos e bolsas quebrando recordes. Alguns diriam que até inflação conta aqui, mas estariam contrariando Milton Friedman:



Bom, a partir desses dois gráficos podemos ver que a situação que nos encontramos hoje é um pouco melhor do que a em 2018, mostrando a economia se recuperando, mas com alguns indicadores que valem a pena dar uma olhada de perto e pensar um pouco: o ICI (Índice de Confiança da Indústria) e ICC (Índice de Confiança do Consumidor). O ICI parece indicar uma desaceleração da economia, mas o ICC indica o início de uma recuperação. Vamos observar a série histórica para entender melhor qual é o possível trajeto da economia.
Primeiro, vamos ver o que o motor da economia acha sobre o futuro desta. Quem é o motor da economia? Ora, o consumidor é claro, afinal se o consumidor não comprar, as empresas não vendem.

O Relatório da FGV sobre o ICC publicado em setembro de 2021 aponta alguns temores sobre o futuro, pela perspectiva dos consumidores. Em específico "inflação e desemprego elevados, e de novos fatores, como o risco de crise energética e o aumento da incerteza econômica e política" de acordo com a Coordenadora das Sondagens da FGV, Viviane Bittencourt.
Ainda, é importante notar que "o quesito que mais influenciou a queda do ICC foi o que mede as perspectivas em relação à situação da economia. O indicador despencou (...) para (...) o menor patamar desde Março."
Além disso, através dessa sondagem foi possível identificar que as famílias deslumbram à sua frente um cenário de deterioração das suas finanças como um todo (essa informação também está no relatório).
Bom, parece que as pessoas estão com medo do futuro da economia, e não sabem direito o que esperar. Para entender um pouco melhor o que podemos esperar dos consumidores daqui pra frente, podemos utilizar o Sistema Gerenciador de Séries do Banco Central para encontrar alguns dados interessantes: O porcentual da renda familiar comprometida com pagamento de dívidas e a inadimplência de pessoas físicas. O eixo y mostra o percentual da renda familiar comprometida com dívidas e o eixo x mostra o mês em que o dado foi auferido.

Podemos ver que logo após o início da pandemia de 2020, houve uma breve redução do comprometimento de renda com dívidas acompanhado de um leve aumento da inadimplência. Mas depois de passado o choque, podemos ver que a inadimplência caiu e a quantidade de dívidas contraídas por famílias aumentou vertiginosamente. Parece, pelos dados, que o aumento do endividamento se deu pela concessão de crédito imobiliário. Podemos inferir subtraindo o valor da linha azul da linha vermelha, já que a linha azul indica o porcentual de endividamento sem o crédito imobiliário, e a linha vermelha o endivamento com o crédito imobiliário. Assim, temos o seguinte gráfico:

E, apenas para termos certeza, vamos também fazer um gráfico de dispersão onde no eixo Y tem a série 19882 e no eixo X esses valores que acabamos de calcular. Assim, ao pedir para o excel retornar o valor de R² e do Coeficiente de Pearson, podemos dizer o quão bem o aumento no crédito imobiliário representa o aumento no crédito total:

O valor de R² nos mostra o quão bem a linha de tendência descreve o aumento do endividamento total em função do endividamento imobiliário, e o coeficiente de Pearson nos mostra o quão bem o aumento do endividamento com crédito habitacional explica o aumento do endividamento total. Obviamente, quanto mais próximo de 1, maior a correlação (sempre lembre-se da máxima da estatística: correlação não é causalidade.
Essa análise nos dá o primeiro insight para a carteira de investimentos: setor imobiliário.
Observando agora o lado da oferta, o que as indústrias acham que vai acontecer daqui pra frente?

O indicador reflete exatamente o que todos pensávamos antes e durante a pandemia. No começo, todos achavam que seria o fim da humanidade como conhecemos (mar/20), quando começaram as notícias de vacina, um otimismo generalizado (set-out/20), depois uma volta à realidade, por que todos sabem que isso aqui é Brasil, e tudo que é bom dura pouco.
Ainda, a indústria mostra boa confiança na recuperação econômica, mesmo que tenham alguns temores, como "pressões de custo, alto desemprego, instabilidades econômicas e institucionais" de acordo com a última Sondagem da Indústria da FGV.
Um bom proxy para entender a economia real, junto com o indicador da indústria mencionado acima, é analisar a produção e venda de veículos automotores. Pelo lado da produção:

Podemos ver claramente a queda na produção de veículos de 2018 para cá, mas, em contra partida, temos um aumento no número de caminhões produzidos. Como os caminhões são a força-bruta que movimenta bens de um lado para o outro no Brasil, um aumento na produção de caminhões indica que os fabricantes de caminhões esperam uma demanda crescente dessa categoria.
Pelo lado da demanda, podemos ver as vendas feitas pelas concecionárias tanto de caminhões quanto de veículos comerciais leves (aquelas vans que entregam onde os caminhões não podem trafegar ou onde as ruas são muito estreitas):

Podemos ver que a quantidade de vendas desses tipos de veículos explodiu durante o período de bonança que vivemos entre 2000 e 2012, caiu durante a recessão de 2012-2018 e voltou a crescer antes depois disso, tendo sofrido um choque da pandemia mas logo retornando à tendência de crescimento.
Então, em que momento do ciclo econômico estamos? Ao contrário do que diz o Relógio do Ciclo, creio que estamos no início de uma recuperação econômica (que aponta uma recuperação pujante). Acho que o mais sensato é imaginar que estamos exatamente na divisa entre o "Ritmo Fraco/Acelrando" e "Ritmo Forte/Acelerando". Os dados indicam que estamos próximos de começar um boom econômico, mas as diversas incertezas e instabilidade que cercam o Governo diminuem muito a confiança de consumidores e empresários.
Parte 2: Análise da Política Monetária
Ok, se a economia real está em recuperação, precisamos ver o que acontece com nossa moeda. Nada melhor do que ver o mercado pelos mesmos olhos do Banco Central, através do Boletim Focus de Mercado. Esse boletim, publicado todas as segundas feiras, possui a medianas das expectativas de mercado para os próximos anos de diversos indicadores econômicos que fazem parte do processo decisório do BC, logo, ao observá-lo e entendê-lo, podemos não ser surpreendidos pelo Banco Central.

Cada cor representa as projeções do mercado para o ano respectivo (azul para 2021, vermelho/vinho para 2022, amarelo para 2023 e verde/preto para 2024), e em cada cor, existem 7 colunas que indicam, em ordem:
Qual era a projeção 4 semanas atrás;
Qual era a projeção 1 semana atrás;
Qual a projeção na data de publicação do relatório (coluna "hoje")
Qual o comportamento semanal (a coluna com as setinhas e os iguais e um número entre parênteses)
Número de projeções coletadas (coluna "Resp.")
As outras duas fazem menção à projeções realizadas no últimos 5 dias úteis e quantas pessoas responderam nos últimos 5 dias úteis, o que não é algo tão relevante para nós.
A primeira coisa que chama atenção são as projeções do IPCA para 2021 e 2022, que, há mais de dois meses, vem sido revistas para cima. O PIB total projetado para 2021 é um aumento de 5,25%, coisa que acho relativamente exagerada, e um crescimento modesto de 2022 à 2024.
Projeta-se uma Selic à 8,25% no final de 2021, e 8,5% em 2022. São projeções que, na minha visão, fazem bastante sentido, ainda mais se levarmos em conta que o banco central americano provavelmente irá subir suas taxas de juros num futuro próximo. Porém, a projeção do câmbio eu acho uma piada, não consigo conceber um câmbio abaixo de R$5,25 num futuro próximo, ainda mais pelo fato que nós, pessoas físicas, nunca vamos pagar o dólar de mercado, sempre vamos pagar um valor mais alto na compra e mais baixo na venda. Trabalhar com dólar de R$6,00 é o cenário base para minha carteira pessoal ao longo dos anos, e será também o cenário base para essa carteira que vou montar aqui.
É interessante também olhar a distribuição das projeções do Boletim Focus. Duas coisas me preocupam no que diz respeito à essas projeções:

Vamos nos atentar às linhas pretas, que são as projeções mais recentes. Pode-se ver que existem profissionais do mercado financeiro já considerando uma Selic de 10% ou até maior em 2022, ao passo que também existem pessoas que dizem que a Selic pode ir até 5,25% no final de 2022. Minha visão pessoal é concordar com a Selic ainda sendo revisada para cima ao longo de 2022.
Em termos de inflação, muitas pessoas confiam que o BC irá se ater às metas de 3,5%, 3,25% e 3% em 2022/23/24, principalmente em 2024, onde nenhuma das projeções espera que a inflação esteja acima da meta (a inflação pode varias 1,5% para cima ou para baixo).
O cenário traçado então para a política monetária, na minha visão, é de que o Banco Central vai fazer o possível para conter a inflação, já que todas as projeções apontam que o BC vai cumprir com seu mandato inflacionário nos próximos anos. Isso significa pra mim uma Selic de 10% em 2022, caindo paulatinamente em 2022 e 2023, inflação com a mesma tendência, mas com a queda iniciando já agora no final de 2021 e dólar pra cima. Sim, pra cima. "Mas Pedro, como assim? Pra cima?". Assim. Encare a realidade e aceite que o dólar nunca vai cair o suficiente para que você compre na baixa. Sempre compre dólar (isso não é recomendação de investimento) por que a única direção possível para o dólar em relação ao real no longo prazo é pra cima.
Parte 3: A Carteira
Dado todo esse cenário econômico e monetário posso fazer as seguintes inferências:
Preciso me posicionar para aproveitar o que falta de acontecer de alta da Selic
Preciso me posicionar no setor imobiliário
Preciso me posicionar no setor de comercio e serviços
Preciso ter alguma coisa em caixa para aproveitar oportunidades de rebalanceamento de carteira
Não posso ultrapassar 75% da carteira exposta a renda variável
Primeiramente, renda fixa, aquela que te faz dormir tranquilo a noite. Vamos colocar cerca de 10% do patrimônio em caixa na forma de Tesouro Selic Pós-Fixado, remunerando Selic + 0,1288% ao ano. Isso da um total de R$988,65 na cotação do dia 01/10/2021
Depois, para complementar a renda fixa, vamos colocar mais R$3.000,00 num CDB do Banco Semear. Arriscado? Sim, mas paga 122% do CDI e tem garantia do FGC (inclusive para o rendimentos, não só para o principal investido). Também iniciado em 01/10/2021
E agora? Que faremos com os outros 75% da carteira? Bom, para se posicionar no setor imobiliário escolhi um FII que julgo muito bom, o DEVA11. Ele compra CRIs e remunera o cotista de acordo com o fluxo de caixa desses recebíveis. Sua carteira tem uma taxa média de CDI +5% e IPCA+10%, com um dividend yield médio de 1% ao mês. E dada as taxas médias de suas carteiras, é possível que esse yield se mantenha pelos próximos anos.
Depois, para se aproveitar no setor de comércio e serviços, uma boa é uma locadora de caminhões: VAMOS (VAMO3). É a unica empresa listada em bolsa no Brasil e possui muita possibilidade de crescimento. O business deles é fazer aluguel de frotas de caminhões para empresas, reduzindo os custos de capital dos seus clientes e recebendo uma receita mensal. Tem muitos planos de expansão e são relativamente baratos na bolsa pelo que podem entregar no futuro.
Em cada um desses dois ativos mencionados serão direcionados algo em torno de R$2.000,00. Não vai ser possível realizar exatamente R$2.000,00 pois a cotação de compra utilizada foi a do fechamento do dia 01/10/2021, mas será o valor mais próximo de R$2.000,00 arredondando o número de cotas para baixo.
Por último, vamos colocar R$2000,00 em dólar, usando o PTAX do Banco Central de 01/10/2021, ou seja, US$371,00. Especificamente, vamos nos expor ao setor de semicondutores e ao urânio, utilizando os ETFs XSD e URA, com uma distribuição do fundo remanescente na carteira igual entre eles. Assim, segue abaixo a primeira carteira do Surfando a Onda:

Um abraço, e até a próxima!
Pedro




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