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WFCF: um possível case de valor?

18 de ago. de 2021
7 min de leitura

Olá. Como o tema que vou falar nesse post pode me complicar junto à CVM/SEC já vai aqui o disclaimer: isso não é uma recomendação de investimentos, é apenas uma exposição da análise que eu realizei sobre a companhia em questão.

Dito isso, também é importante dizer que eu possuo ações da companhia que vou analisar aqui.

Sem mais delongas, vamos ao assunto: Where Food Comes From.

Essa é uma empresa que encontrei ao procurar alguma micro-cap dos EUA para investir meus suados dólares. Quis encontrar uma empresa que tivesse as seguintes características: boa capacidade de geração de caixa, endividamento/alavancagem saudável, bom histórico de rentabilidade, uma via clara de crescimento pro futuro e algumas barreiras de entrada.

Aí que me econtrei com a WFCF. Naturalmente, o primeiro impulso é olhar pro preço da ação e verificar se existe uma tendência clara de alta ou de baixa, mas tratando-se de Value Investing (ou investimentos de valor), a primeira coisa que costumo olhar é a receita da companhia, trimestre a trimestre e até mesmo ano a ano, juntamente com seu crescimento


Grafico 1: Receita trimestral WFCF em Milhões de Dólares

Gráfico 2: CAGR de 5Y por Quarter das Receitas

No gráfico 1 vemos a receita da companhia desde 2011. Tem algumas variações de quarter a quarter, mas o gráfico 2 nos comprova que que a companhia realmente está em franco crescimento, com uma média de 12% ao ano, mesmo durante a pandemia do covid (onde suas atividades foram impactadas por conta de lockdowns).


Depois, gosto de olhar a receita operacional da companhia (Operating Income), também vendo uma visão de longo prazo. Gosto dessa métrica, pois ela nos diz se a operação da companhia é rentável ou não. Se uma companhia tiver um Operating Income negativo, significa que tudo que ela venda não é suficiente nem para pagar suas despesas operacionais diretas e indiretas (exceto impostos). Ou seja, é basicamente o lucro bruto (receita menos custos diretos de venda de produtos/serviços) subtraído de custos indiretos da companhia (salários administrativos, campanhas de marketing, comissões de vendas, etc).


Gráfico 3: Receita Operacional Anual

Nos últimos 10 anos, não houve prejuízo operacional, ou seja, tudo que foi feito no core business da empresa é o suficiente para que ela se mantenha viva e operando, não necessitando de capital extra para continuar a operar. Importante notar que o Ano Fiscal mais recente aparece como 2021 nesse gráfico, mas se deve ao fato de que o resultado anual foi divulgado em Fevereiro de 2021, logo esse agregador que uso entende que se refere ao ano fiscal de 2021. Na prática, tanto faz, o importante é o valor estar correto e de acordo com o dado divulgado pela empresa (e ele está correto! eu verifiquei)


Bom, a operação dá lucro, mas e a companhia como um todo? Os investimentos que eles fazem e recebem dão lucro? Vamos agora ver o Lucro Líquido da companhia (net income), por que de nada adianta uma operação saudável se eles dão prejuízo ano após ano.



Gráfico 5: Lucro Líquido por Ano

Bom, parece que a companhia passou por maus bocados em 2014 e 2018. Para entender melhor o que isso significa, precisamos entender a estratégia que ela está executando e qual o impacto financeiro disso. Pelo que pode ser visto, em 2014 (demonstrativos de 2013) a empresa incorreu num grande custo com juros de dívidas, provavelmente um pagamento antecipado, dado que a linha de "Notes Payable" teve redução. Notes Payable é uma linha do balanço que mostra o que houve de dívidas.


Em 2018 (demonstrativos de 2017), o CEO afirma que a queda no lucro líquido foi devido à aquisição de uma subsidiárias, que teve um crescimento altíssimo de custos que seria endereçado durante o ano de 2018. Vimos que ele fez a lição de casa, pois o resultado do lucro líquido de 2018 foi muito bom.


Depois, precisamos olhar a capacidade da companhia de pagar seus credores, existem duas métricas diferentes o EBITDA e o FCF. O EBITDA (ou LAJIDA para os contadores brasileiros) é o "Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation, Amortization" (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização). Ou seja: é o quanto de dinheiro as vendas da companhia geraram. Ele é um pouco maior que o Operating Income, pois não considera depreciação via opex e nos dá uma ideia da capacidade de geração de caixa da companhia.

Já o FCF é o "Free Cash Flow" ou o "Fluxo de Caixa Livre" e representa a quantidade de dinheiro disponível para repagar dívidas ou dividendos para os investidores, assim como a quantidade de dinheiro disponível para expandir o negócio.


Gráfico 6: EBITDA por Ano

Grafico 7: Fluxo de Caixa Livre

A primeira vista, o fluxo de caixa livre não parece muito animador. Porém, em 2013, 2016 e 2018 ele foi afetado não por investimentos pouco sustentáveis, mas por aquisições de companhias que agregam valor à operação da WFCF, nos valores de USD500k, USD1,5M e USD 1,8M respectivamente. Também é interessante olhar o crescimento do EBITDA a uma média de 40% ao ano nos últimos 10 anos


Agora, vamos chegar na parte onde algumas companhias começam a cheirar mal: endividamento. A métrica que eu mais gosto de olhar é a Dívida Líquida sobre EBITDA. Essa métrica nos mostra quantos anos demoraria para a empresa pagar todas as suas dívidas se seu EBITDA e seu endividamento estiverem constantes. Por mais estranho que pareça, essa métrica pode sim ser negativa por conta da forma de cálculo dela, que é subtrair todo do dinheiro e equivalentes de dinheiro em caixa da dívida total, e dividir pelo EBITDA. Ou é por conta de um EBITDA negativo.


Gráfico 8: Dívida Líquida sobre EBITDA

Vimos que o EBITDA da WFCF é positivo, então, somente para paz de espírito, vamos olhar o balanço da companhia procurando pela linha "Cash & Cash Equivalents" ou "Cash on Hand" ao longo dos últimos anos.

Grafico 9: Cash on Hand

Vemos que os gráficos 8 e 9 conversam entre sim. Quando há muito dinheiro no caixa da companhia, a Dívida Liquida/EBITDA é negativo, corroborando assim com a tese de que é uma empresa que está trabalhando muito para adquirir outras empresas e ganhar dinheiro com isso.


Legal! Conseguimos finalizar a análise financeira de value investing. Agora, será que já podemos tomar uma decisão de comprar ou não a ação? Se fossemos um bot de trade, provavelmente sim, mas somos investidores de longo prazo que gostam e empresas boas e baratas.


Vamos identificar se é uma empresa boa, ou só uma empresa financeiramente saudável. Ser uma empresa boa no âmbito de investimentos de valor, é ser uma empresa que tem um time executivo sólido e alinhado, além de uma boa visibilidade de como crescer nos próximos anos.


Quem é o time executivo?

Em resumo:

  • CEO e Fundador:

- John Saunders.

- Formado em História em Yale.

- 26 anos na empresa.

  • COO e Fundadora:

- Leann Saunders.

- Bacharel em Agricultural Business. Colorado State University

- Mestre em Agricultura com Foco em Liderança na indústria bovina. Colorado State University - VP de Marketing da PM Holdings

- Gerente de processos de valor na Hudson Foods.

- 19 anos na empresa.

  • CFO and Coorporate Strategy:

- Dannette Henning.

- CPA

- Assessor de Auditoria KPMG

- Controladoria na Sirenza Microdevices, DF&R Restaurant Company.

- Gerente de Contabilidade na CSI/CDC Company

  • Board:

- Graeme Rein.

- Economista formado em Princeton.

- CFA

- CPA.

- Chief Investment Officer do seu fundo de capitais (Yorkmont Capital).

- Auditor da Delloite

- Analista da Bares Capital.

- Está no Board de 2016. - 10 anos de experiência


- Michael Smith.

- Formado em Produção Animal pela Texas Tech University.

- Diretor de Board da Texas Livestock Marketing Association

- Diretor da National Finance Credit Corporation of Texas

- Está no Board da desde 2016.

- 40 anos de experiência.

- Pete Lapaseotes.

- Diretor de Board na Dinklage Feedyards

- Diretor de Board no Valley Bank/Western States Bank

- Diretor de Board da Global South Fork Solutions

- Fundador e dono da Lapaseotes LTD, CPN Farms and Greenwood Ranch

- Está no Board da desde 2006

- 40 anos de experiência.

- Adam Larson

- Envolvido com o business agro desde 1991.

- No Board da Companhia desde 2006.

- Primariamente envolvido com financiamento de gado.

- Tom Heinen

- Co Presidente da Heinen's, Inc.

- Responsável por 3000 funcionários na operação de Chicago de sua companhia.

- Formado em Business Management pela Bucknell University

Na minha visão, me parece um time executivo extremamente capacitado para navegar o mercado agropecuário, além de terem grandes fortalezas quando se trata de aquisição de novos negócios. E qual o futuro da companhia? Bom, a estratégia de aquisição de novos negócios parece fazer muito sentido levando em conta o time executivo. A maior parte do valor vem das exigências que consumidores estão começando a ter relativo à origem das suas comidas, por conta das mudanças culturais que estão ocorrendo nos EUA: cruelty-free, ESG, free-ranch, Organic, Non-GMO, etc. E a WFCF atua nesse segmento, sendo a lider de mercado e a única empresa do segmento listada em bolsa. Ela mostra uma relação muito forte com grandes players do mercado de alimentação, como McDonalds, Cargill, Chick-fil-a, Coca-Cola, Ben & Jerry's, Danone, CostCo, e outros. Além disso, os executivos também tem grande participação acionária na companhia, o que alinha melhor os interesses do acionista e do time que efetivamente toma conta da empresa. Também tem expertise em navegar o ambiente regulatório americano e até força suficiente para fazer um Lobby, caso surja a necessidade.


Acho que a última coisa que precisamos olhar são os famigerados múltiplos: P/E, EV/EBITDA Hoje em dia, o P/E ou Price-to-Earnings da WFCF está em torno de 33x. Comparando com outros micro-caps, parece que está em linha com o mercado, que tem média e 30x. EV/EBITDA também está esticado, em torno de 460x, nas máximas históricas.


É uma empresa especialmente barata? Não, mas considerando o crescimento que se espera daqui pra frente (algo em torno 20% ao ano num cenário conservador, e 10% ao ano num cenário pessimista), o valuation faz sentido no preço de hoje (18/08).


Espero que tenham gostado, e, novamente, ISSO NÃO É UMA RECOMENDAÇÃO DE INVESTIMENTO, é apenas um racional para mostrar como analiso uma empresa. Esperem por mais dessas! Abraço, Pedro.



 
 
 

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