WFCF: um possível case de valor?
Olá. Como o tema que vou falar nesse post pode me complicar junto à CVM/SEC já vai aqui o disclaimer: isso não é uma recomendação de investimentos, é apenas uma exposição da análise que eu realizei sobre a companhia em questão.
Dito isso, também é importante dizer que eu possuo ações da companhia que vou analisar aqui.
Sem mais delongas, vamos ao assunto: Where Food Comes From.
Essa é uma empresa que encontrei ao procurar alguma micro-cap dos EUA para investir meus suados dólares. Quis encontrar uma empresa que tivesse as seguintes características: boa capacidade de geração de caixa, endividamento/alavancagem saudável, bom histórico de rentabilidade, uma via clara de crescimento pro futuro e algumas barreiras de entrada.
Aí que me econtrei com a WFCF. Naturalmente, o primeiro impulso é olhar pro preço da ação e verificar se existe uma tendência clara de alta ou de baixa, mas tratando-se de Value Investing (ou investimentos de valor), a primeira coisa que costumo olhar é a receita da companhia, trimestre a trimestre e até mesmo ano a ano, juntamente com seu crescimento


No gráfico 1 vemos a receita da companhia desde 2011. Tem algumas variações de quarter a quarter, mas o gráfico 2 nos comprova que que a companhia realmente está em franco crescimento, com uma média de 12% ao ano, mesmo durante a pandemia do covid (onde suas atividades foram impactadas por conta de lockdowns).
Depois, gosto de olhar a receita operacional da companhia (Operating Income), também vendo uma visão de longo prazo. Gosto dessa métrica, pois ela nos diz se a operação da companhia é rentável ou não. Se uma companhia tiver um Operating Income negativo, significa que tudo que ela venda não é suficiente nem para pagar suas despesas operacionais diretas e indiretas (exceto impostos). Ou seja, é basicamente o lucro bruto (receita menos custos diretos de venda de produtos/serviços) subtraído de custos indiretos da companhia (salários administrativos, campanhas de marketing, comissões de vendas, etc).

Nos últimos 10 anos, não houve prejuízo operacional, ou seja, tudo que foi feito no core business da empresa é o suficiente para que ela se mantenha viva e operando, não necessitando de capital extra para continuar a operar. Importante notar que o Ano Fiscal mais recente aparece como 2021 nesse gráfico, mas se deve ao fato de que o resultado anual foi divulgado em Fevereiro de 2021, logo esse agregador que uso entende que se refere ao ano fiscal de 2021. Na prática, tanto faz, o importante é o valor estar correto e de acordo com o dado divulgado pela empresa (e ele está correto! eu verifiquei)
Bom, a operação dá lucro, mas e a companhia como um todo? Os investimentos que eles fazem e recebem dão lucro? Vamos agora ver o Lucro Líquido da companhia (net income), por que de nada adianta uma operação saudável se eles dão prejuízo ano após ano.

Bom, parece que a companhia passou por maus bocados em 2014 e 2018. Para entender melhor o que isso significa, precisamos entender a estratégia que ela está executando e qual o impacto financeiro disso. Pelo que pode ser visto, em 2014 (demonstrativos de 2013) a empresa incorreu num grande custo com juros de dívidas, provavelmente um pagamento antecipado, dado que a linha de "Notes Payable" teve redução. Notes Payable é uma linha do balanço que mostra o que houve de dívidas.
Em 2018 (demonstrativos de 2017), o CEO afirma que a queda no lucro líquido foi devido à aquisição de uma subsidiárias, que teve um crescimento altíssimo de custos que seria endereçado durante o ano de 2018. Vimos que ele fez a lição de casa, pois o resultado do lucro líquido de 2018 foi muito bom.
Depois, precisamos olhar a capacidade da companhia de pagar seus credores, existem duas métricas diferentes o EBITDA e o FCF. O EBITDA (ou LAJIDA para os contadores brasileiros) é o "Earnings Before Interest, Taxes, Depreciation, Amortization" (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização). Ou seja: é o quanto de dinheiro as vendas da companhia geraram. Ele é um pouco maior que o Operating Income, pois não considera depreciação via opex e nos dá uma ideia da capacidade de geração de caixa da companhia.
Já o FCF é o "Free Cash Flow" ou o "Fluxo de Caixa Livre" e representa a quantidade de dinheiro disponível para repagar dívidas ou dividendos para os investidores, assim como a quantidade de dinheiro disponível para expandir o negócio.


A primeira vista, o fluxo de caixa livre não parece muito animador. Porém, em 2013, 2016 e 2018 ele foi afetado não por investimentos pouco sustentáveis, mas por aquisições de companhias que agregam valor à operação da WFCF, nos valores de USD500k, USD1,5M e USD 1,8M respectivamente. Também é interessante olhar o crescimento do EBITDA a uma média de 40% ao ano nos últimos 10 anos
Agora, vamos chegar na parte onde algumas companhias começam a cheirar mal: endividamento.
A métrica que eu mais gosto de olhar é a Dívida Líquida sobre EBITDA. Essa métrica nos mostra quantos anos demoraria para a empresa pagar todas as suas dívidas se seu EBITDA e seu endividamento estiverem constantes. Por mais estranho que pareça, essa métrica pode sim ser negativa por conta da forma de cálculo dela, que é subtrair todo do dinheiro e equivalentes de dinheiro em caixa da dívida total, e dividir pelo EBITDA. Ou é por conta de um EBITDA negativo.

Vimos que o EBITDA da WFCF é positivo, então, somente para paz de espírito, vamos olhar o balanço da companhia procurando pela linha "Cash & Cash Equivalents" ou "Cash on Hand" ao longo dos últimos anos.

Vemos que os gráficos 8 e 9 conversam entre sim. Quando há muito dinheiro no caixa da companhia, a Dívida Liquida/EBITDA é negativo, corroborando assim com a tese de que é uma empresa que está trabalhando muito para adquirir outras empresas e ganhar dinheiro com isso.
Legal! Conseguimos finalizar a análise financeira de value investing. Agora, será que já podemos tomar uma decisão de comprar ou não a ação? Se fossemos um bot de trade, provavelmente sim, mas somos investidores de longo prazo que gostam e empresas boas e baratas.
Vamos identificar se é uma empresa boa, ou só uma empresa financeiramente saudável. Ser uma empresa boa no âmbito de investimentos de valor, é ser uma empresa que tem um time executivo sólido e alinhado, além de uma boa visibilidade de como crescer nos próximos anos.
Quem é o time executivo?
Em resumo:
CEO e Fundador:
- John Saunders.
- Formado em História em Yale.
- 26 anos na empresa.
COO e Fundadora:
- Leann Saunders.
- Bacharel em Agricultural Business. Colorado State University
- Mestre em Agricultura com Foco em Liderança na indústria bovina. Colorado State University - VP de Marketing da PM Holdings
- Gerente de processos de valor na Hudson Foods.
- 19 anos na empresa.
CFO and Coorporate Strategy:
- Dannette Henning.
- CPA
- Assessor de Auditoria KPMG
- Controladoria na Sirenza Microdevices, DF&R Restaurant Company.
- Gerente de Contabilidade na CSI/CDC Company
Board:
- Graeme Rein.
- Economista formado em Princeton.
- CFA
- CPA.
- Chief Investment Officer do seu fundo de capitais (Yorkmont Capital).
- Auditor da Delloite
- Analista da Bares Capital.
- Está no Board de 2016. - 10 anos de experiência
- Michael Smith.
- Formado em Produção Animal pela Texas Tech University.
- Diretor de Board da Texas Livestock Marketing Association
- Diretor da National Finance Credit Corporation of Texas
- Está no Board da desde 2016.
- 40 anos de experiência.
- Pete Lapaseotes.
- Diretor de Board na Dinklage Feedyards
- Diretor de Board no Valley Bank/Western States Bank
- Diretor de Board da Global South Fork Solutions
- Fundador e dono da Lapaseotes LTD, CPN Farms and Greenwood Ranch
- Está no Board da desde 2006
- 40 anos de experiência.
- Adam Larson
- Envolvido com o business agro desde 1991.
- No Board da Companhia desde 2006.
- Primariamente envolvido com financiamento de gado.
- Tom Heinen
- Co Presidente da Heinen's, Inc.
- Responsável por 3000 funcionários na operação de Chicago de sua companhia.
- Formado em Business Management pela Bucknell University
Na minha visão, me parece um time executivo extremamente capacitado para navegar o mercado agropecuário, além de terem grandes fortalezas quando se trata de aquisição de novos negócios. E qual o futuro da companhia? Bom, a estratégia de aquisição de novos negócios parece fazer muito sentido levando em conta o time executivo. A maior parte do valor vem das exigências que consumidores estão começando a ter relativo à origem das suas comidas, por conta das mudanças culturais que estão ocorrendo nos EUA: cruelty-free, ESG, free-ranch, Organic, Non-GMO, etc. E a WFCF atua nesse segmento, sendo a lider de mercado e a única empresa do segmento listada em bolsa. Ela mostra uma relação muito forte com grandes players do mercado de alimentação, como McDonalds, Cargill, Chick-fil-a, Coca-Cola, Ben & Jerry's, Danone, CostCo, e outros. Além disso, os executivos também tem grande participação acionária na companhia, o que alinha melhor os interesses do acionista e do time que efetivamente toma conta da empresa. Também tem expertise em navegar o ambiente regulatório americano e até força suficiente para fazer um Lobby, caso surja a necessidade.
Acho que a última coisa que precisamos olhar são os famigerados múltiplos: P/E, EV/EBITDA Hoje em dia, o P/E ou Price-to-Earnings da WFCF está em torno de 33x. Comparando com outros micro-caps, parece que está em linha com o mercado, que tem média e 30x. EV/EBITDA também está esticado, em torno de 460x, nas máximas históricas.
É uma empresa especialmente barata? Não, mas considerando o crescimento que se espera daqui pra frente (algo em torno 20% ao ano num cenário conservador, e 10% ao ano num cenário pessimista), o valuation faz sentido no preço de hoje (18/08).
Espero que tenham gostado, e, novamente, ISSO NÃO É UMA RECOMENDAÇÃO DE INVESTIMENTO, é apenas um racional para mostrar como analiso uma empresa. Esperem por mais dessas! Abraço, Pedro.




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