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O pior inimigo de qualquer capitalista!

17 de set. de 2021
5 min de leitura

Não, não é o socialista. Também não é o trabalhador, nem mulheres, nem negros ou gays. E não, também não são outros capistalistas: o maior inimigo de um capitalista é a inflação. Bom, não vou fazer a pergunta de "o que é uma moeda?", pois eu já a respondi nesse artigo. Não farei a pergunta, mas vou apresentar o conceito que irei me ater nesse artigo. Moeda, para todos os efeitos desse artigo, é o papel colorido emitido por Bancos Centrais ou os dígitos criados (a partir do nada) nas contas correntes dos Bancos Comerciais junto ao Banco Central de sua jurisdição.


Em outro artigo, eu discuti o que de fato era a inflação e como ela afetava empresas e consumidores, mas acabei deixando de lado o efeito nefasto que a inflação (decorrente da moeda fraca) tem sobre o capital. Primeiro de tudo, lembre-se de que inflação só é corretamente definida por aumento da quantidade de dinheiro disponível no mercado e sua subsequente desvalorização frente aos outros bens.


Essa desvalorização costuma ser medida pelos Bancos Centrais na forma de índices de inflação: CPI nos EUA, IPCA no BR e HICP na União Europeia. Como um investimento nada mais é do que um bem, nesse caso financeiro, é natural pensar que seu preço também aumente com uma escalada inflacionária. Uma parte da valorização das bolsas mundiais depois da crise de 2020 se deu por conta da quantidade enorme de dinheiro inundando mercados. Se não entendeu, volte na definição de inflação.


Agora, se os seus investimentos aumentaram na mesma proporção que a inflação, tudo bem né? Bom, sim e não. Para uma sociedade prosperar (e isso já foi explorado por economistas como Adam Smith e Ludwig von Mises), é necessário haver acumulo de capital. Se todo investimento é corrigido apenas pela inflação, a única forma possível de acumular capital é através do trabalho, impossibilitando que o capital gere riqueza por si só. Ou seja, adeus aposentadoria. Felizmente, seu dinheiro pode gerar mais rendimento do que a inflação. Infelizmente, estando no Brasil, isso é bem mais difícil. Vamos fazer uma comparação de quanto tempo demoraria para você se tornar um milionário em dois países: Brasil e Estados Unidos da América. As premissas de rentabilidade e risco serão exatamente as mesmas, nos dois países. Quem diria hein? Brasil com risco de EUA. Vamos supor o cenário de um jovem que acaba de completar seus 20 anos, tendo se formado num curso de técnico em mecânica que vai trabalhar no automobilismo, começando como operador de pistola hidráulica na NASCAR ou na StockCar, dependendo de onde ele estiver.


Vamos supor que depois de receber seu salário e pagar todas as suas contas, esse jovem consegue poupar 600 unidades monetárias por mês (reais ou dólares, tanto faz), e vai aplicar todas elas num fundo de índice da bolsa do seu país. Ele continua fazendo isso por 60 anos, até chegar aos 80 anos de idade. Howard Marks, economista e mago dos ciclos de mercado, diz que, ao longo do tempo, a média de rentabilidade anual que se obtém investindo num índice de bolsa é de cerca de 8% ao ano, já descontados impostos e taxas. Nessa taxa, nosso jovem teria algo em torno de 9 milhões de Unidades Monetárias, após 60 anos (exatos $9.015.935,73)


Capital acumulado ao longo de 60 Anos, investindo à uma taxa de 8% ao ano, com aportes mensais de 600 moedas


"Ta Pedro, então você tá só me enrolando. Cadê "o maior inimigo do capitalista"? Vai só ficar no click bait?"


Chegamos então na hora da verdade. Quanto esses milhões de unidades monetárias valem? Pensou? Mas você sabe quanto elas realmente valem?

Vamos exercitar um pouco nossa mente pensando que no momento que nosso jovem nasceu, houve uma disrupção no espaço-tempo que criou cópias praticamente idênticas dele e da sociedade em que ele vivia, com uma única diferença entre elas, a moeda na qual o jovem é remunerado. Chamaremos de John a versão que ganha em Dólar e João a versão que ganha em Real. Além disso, precisamos pensar sob a seguinte ótica: o planejamento feito pelo par João/John leva em conta que ele quer manter o mesmo padrão de vida que ele manteve a vida inteira, durante a sua aposentaria. Em outras palavras, ele quer ter o mesmo poder de compra que ele tinha na sua juventude.

Para conseguirmos saber quanto valem esses milhões de dólares hoje, precisamos montar uma base de comparação: quantas coisas conseguia-se comprar com esse dinheiro em 1960 e quanto se consegue hoje? Felizmente, podemos aproximar esse valor a partir dos índices de inflação da moeda de cada país. Pegamos o valor acumulado por John/João no fim do período de acumulação e desvalorizamos ele usando índice de inflação da moeda selecionada por um período igual ao que ele passou acumulando dinheiro, 60 anos no caso. Felizmente, para o cenário em dólar, temos dados de inflação exatamente desde 1960 até 2020, que dão exatos 60 anos. Nesse caso, o montante de 9 milhões acumulado por John tem exatamente o mesmo poder de compra que um 986 mil dólares tinha em 1960. Uma desvalorização de 89% do poder de compra. Impressionante né? Isso por que o FED teve a proeza de manter a inflação media nesse período em 3,68% ao ano, desde 1960 até hoje.



Poder de Compra de 9 Milhões de Dólares ao longo dos últimos 60 anos


Infelizmente, para o cenário em Real, isso não é verdade. Primeiro, por que o Real não existia antes de 1994, então teremos que supor que não vamos passar por outra mudança monetária nos próximos anos. E, como o Brasil é café com leite, vou supor que a inflação média é contabilizada somente depois de 1996, quando o Plano Real entrou plenamente em vigor (caso contrário teríamos que lidar com uma inflação média que poderia facilmente passar os 10% ao mês).


A média da inflação no Brasil é substancialmente maior: 6,48%. Nesse cenário, passados 60 anos, um milhão de reais tem o mesmo poder de compra de apenas 22 mil. Ou seja, uma desvalorização de 98%.


Poder de Compra de 9 milhões de reais num cenário hipotético de 60 anos de duração

Resumindo, mesmo que você consiga uma rentabilidade acima da inflação, o poder de compra do seu patrimônio ainda é corroído substancialmente no longo prazo. E para se proteger disso, não existe muito o que possa ser feito na prática: você pode comprar títulos indexados ao índice de inflação (famoso IPCA+), investir em empresas que não são capital intensive, ou seja, são empresas que dependem menos de investimentos massivos para continuar produzindo (tipo uma mineradora, um restaurante ou um hotel). Note que eu disse "continuar" produzindo, não começar a produção ou investir numa fábrica nova. Caso uma mineradora esteja com uma estratégia de expansão de suas minas, provavelmente ela se encaixa no caso de capital intensive, mas caso ela esteja explorando suas minas atuais com poucas previsões de manutenção nos próximos anos, aí ela entra na categoria de labor intensive, ao invés de capital intensive.


Com a primeira opção (títulos IPCA+), você se blinda diretamente da inflação e ainda aufere juro real em cima dela, pois você será remunerado na variação do IPCA no período somado a uma taxa pré-fixada.


Com a segunda opção, você se protege indiretamente pois, o investir nesse tipo de companhia, você intrinsicamente está esperando que essa companhia receba os efeitos da inflação dos seus fornecedores e repasse essa depreciação monetária para os seus clientes. Um pouco mais arriscado, porém, é assim que funciona a vida de mercado de ações.


Por último, deixo aqui uma imagem do poder de compra do dólar nos últimos 100 anos. Note como a fundação do FED marca o início da desvalorização contínua do dólar americano ao longo dos últimos anos. Você tem certeza que bancos centrais são essenciais para "garantir a estabilidade monetária"?


Fonte: https://howmuch.net/articles/rise-and-fall-dollar


Por hoje é só. Um abraço! Pedro.

 
 
 

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