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Surfando as Ondas #02

3 de mai. de 2022
9 min de leitura

Olá. Como estão? Antes de começarmos, vamos aos recados de sempre:


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Sem mais delongas, vamos à segunda parte da minha série "Surfando as Ondas". Para entender exatamente o que é essa série, confira o primeiro post dela aqui.


Vou abordar nesse artigo o desempenho da carteira apresentada anteriormente, uma breve análise das causas do seu desempenho, uma revisão do momento macroeconômico e uma previsão (que sempre estará errada) de o que acontecerá com a rentabilidade da carteira daqui pra frente, além de um breve comentário sobre a economia americana e mundial.


Parte 1: Desempenho da Carteira



No total: uma queda de -1,78% no valor de mercado da carteira, ao longo de seis ou sete meses de bearmarket, com muito mais pela frente como mostrarei a diante.

Nesses últimos três meses, apresentamos uma volatilidade de curto prazo alta, porém inferior ao benchmark que estamos seguindo, que é o Índice Bovespa (IBOV). Considero isso uma pequena vitória, pois, apesar de efetivamente estarmos perdendo dinheiro, estamos perdendo menos que a média do mercado. Se conseguirmos minimizar as perdas (ou seja, os riscos) conseguimos ganhar do mercado a longo prazo.


Abaixo uma visão geral das rentabilidades dos ativos da carteira.

Mercado de Ações:



Vemos que estamos com uma posição negativa nos mercados de bolsa. Em geral, nossa posição está caindo (em reais), cerca de 13%, mas, os fundamentos das empresas e das estratégias não se alteraram.

Mercado de Dívida:


Já no "Porto Seguro" da carteira, começo fazendo o "mea culpa": errei na previsão da Selic, causando uma boa volatilidade no nosso LTN Pré 2026. Felizmente, é uma posição pequena, que não impacta o rendimento total, que já acumula 114% do CDI, muito bom para o cenário que nossa carteira está inserida.


Parte 2: Causas do Desempenho da Carteira


Vamos endereçar o elefante branco na sala: "Nossa Pedro, esse método desses austríacos e daquele velho lá não dão certo mesmo né?". Bom, se você quer ganhar dinheiro em 3 anos, vai abrir um negócio e torce pra não ir a falência. Esse é o tipo de coisa que leva tempo para teses se concretizarem, pois é um método que se aproveita de distorções não capturadas pelo mercado ainda. Essencialmente, todas as posições que temos estão fundamentalmente melhores: empresas com maiores margens, preços aumentando na indústria de silício, disrupções no fornecemento de gás natural para a Europa, aumento da agenda pró-ESG. Os preços caem por uma aversão a risco generalizada e por que existe um prospecto de que uma desaceleração mundial, com alguns falando até em recessão mundial. Isso é um impacto para as empresas e pro FII da nossa carteira? Sem dúvida, mas ser dono de uma empresa com boas margens, boas perspectivas de crescimento e boa saúde financeira é bem melhor do que ser dono de uma empresa altamente endividada, com o mercado saturado e prejuízos recorrentes num cenário como se desenha daqui pra frente.


Entrando no detalhe dos ativos. Primeiro de tudo, VAMOS aos resultados de VAMO3.


Apenas lembrando que todas as comparações de crescimento são feitas em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Receita crescendo bem, lucro crescendo bem e lucro recorrente crescendo bem, com grandes avenidas de crescimento. Com a alta de juros, é muito caro para empresas comprarem caminhões, mas a Vamos tem uma capacidade de capital muito grande, então sai mais barato para ela do que para as empresas menores comprar caminhões. Assim, é até mais barato para as clientes da Vamos alugarem os caminhões dela do que comprar seus próprios.


A empresa também contraiu um pouco mais de dívida, mas nada preocupante, pois ela continua expandindo a margem de lucro líquido. E, de quebra, o preço que o mercado coloca nela é perto das mínimas históricas quando analisamos os múltiplos (P/E, EV/EBITDA e P/B).


Agora, falaremos de XSD, nossa tese de "silício". O Pat Gelsinger, CEO da Intel (NYSE:INTC) afirmou que a previsão antiga de fim falta chips foi revisada: de meio de 2023, para final de 2024. Além do mais, o problema é bem amplo. Não é apenas uma falta de material, ou cadeias de suprimento disruptadas, é uma questão de que basicamente tudo no mundo utiliza algum tipo de chip de silício. "Ah Pedro, mas o brasileiro médio não usa essas coisas tecnológicas". O brasileiro médio usa smartphone, usa geladeira, usa televisão, usa telefone, usa rádio, MP3, caixinha de som. O brasileiro médio pode não usar um I9-10980XE (o processador de desktop topo de linha da Intel), mas ele com certeza usa uma infinidade de produtos que dependem de tecnologia embarcada. Raios, até o vendedor de coco na praia usa uma maquinha de cartão que precisa de um chip eletrônico de média complexidade.


Ainda, não são somente as fabricantes de chip que estão com problemas de atender a demanda, as empresas que produzem as máquinas para produzir chips também não estão conseguindo dar conta da demanda, o que pressiona preços de máquinas (e, por consequência, dos chips) para cima e atrasa a estabilização do suprimento de chips.


Talvez, como a tese dos juros brasileiros, tenhamos entrado um pouco cedo demais, mas não vejo necessidade de se desfazer da posição.


E nossa tese nuclear, com urânio? Olha, para ser bem sincero, essa é uma tese que espero que se pague ao longo dos próximos 10-15 anos, e, estruturalmente falando, vejo muito mais oportunidades do que riscos. De fato, o mercado de energia nuclear está esticado, com valuations muito agressivos, mas não tem como a humanidade continuar queimando petróleo e gás para sempre. E o único substituto viável seria a energia nuclear, por ser uma fonte limpa, relativamente segura e com uma densidade energética centenas de vezes maior que petróleo e seus derivados.


Também não vejo sentido em se desfazer da posição.


Finalmente, mercado imobiliário, com o FII DEVA11.


Começo reproduzindo aqui uma frase que pode ser encontrada no relatório gerencial de Março da Gestora do Fundo:

É difícil ser mais otimista que isso.


Com uma carteira altamente diversificada e com uma taxa média altíssima (cerca de 20% no caso de títulos indexados ao IPCA e 17% nos indexados ao CDI), estou extremamente tranquilo com a posição, mesmo tendo um resultado negativo. O resultado negativo é um reflexo do mercado sendo irracional.


Parte 3: Revisão Macroeconômica


Bom, o que acontece é que a FGV agora cobra pelos indicadores que usei anteriormente, e, como eu ainda não sou um multi-milionário megaespeculador mundial e esse blog não é minha atividade profissional, vou procurar indicadores disponíveis de forma gratuita. Assim, reproduzo abaixo o ICE (Índicador de Confiança Empresarial) com a própria tratativa de dados da Fundação Getúlio Vargas:

Parece (leia bem, parece) que os empresários estão mais confiantes com a economia do Brasil, dado a alta na leitura do último trimestre, mas pode ser que isso demore um pouco. Estamos melhores do que na crise de 2020, 2016 e 2008, pelo menos por esse indicador.

Já pela ótica do consumidor, também há a sinalização de que a economia pode melhorar, mas não estamos tão bem quanto estávamos após a crise de 2016.


Agora, vamos observar o indicador de Formação Bruta de Capital Fixo, um indicador que sempre trago aqui nas minhas análises, pois ele independe do pensamento dos empresários, já que leva em conta o que os empresários estão fazendo. Em resumo, esse indicador responde à seguinte pergunta: "Estamos expandindo ou contraindo a capacidade de produção do setor privado no Brasil?". Bom, esse indicador nos mostra que estamos em níveis de expansão vistos antes da crise de 2016, o que é um prospecto positivo.


A história contada pelos indicadores antecedentes é clara: empresas estão acreditando que uma retomada econômica é possível, e estão se preparando para isso, comprando mais máquinas e equipamentos para expansão de produção. Os consumidores também creem no aumento da atividade econômica, mas talvez com menos esperanças. Eu, particularmente, acredito que essas expectativas estão marginalmente otimistas, pois creio que ainda temos um pequeno caminho para o fundo do poço. Por quê? Bom, eu lhe respondo com único gráfico, que é outro indicador antecedente.



A curva de juros brasileira está completamente invertida, ou seja, os títulos de curto prazo (1 ano) estão com uma rentabilidade maior do que os títulos de longo prazo (10 anos), caracterizando uma incerteza monstruosa no curto prazo. E, note, essa inversão ocorreu no final de 2021, que coincide muito bem com a queda que a bolsa apresentou nos últimos meses:


Veremos agora alguns indicadores coincidentes, para continuarmos nosso diagnóstico do momento do ciclo econômico, tais como nosso PIB. Primeiro vou mostrar a taxa de crescimento em Reais (R$) e depois o valor mensal do PIB em Dólares Americanos (USD):

Taxa de Crescimento do PIB. Fonte: IBGE
PIB mensal em Dólares Americanos (USD). Fonte: BCB/SGS

Bom, fica claro para mim que estamos com um valor positivo de crescimento do PIB, registrando um crescimento de 4,9% na comparação ano a ano no quarto trimestre de 2021 (gráfico de taxa de crescimento do PIB). Porém, o PIB brasileiro ainda está pior do que antes da pandemia perante o cenário internacional, sugerindo que talvez tenhamos espaço para crescer ainda.


Ao observar-se o IBC-BR como a variação percentual em relação ao ano anterior, é fácil deduzir que, após as fáceis comparações do período de pandemia, a atividade econômica brasileira ainda se encontra em níveis piores que os pré-pandemia, e em desaceleração.


Além disso, o gráfico de taxa de desocupação abaixo mostra que, apesar de termos recuperado todos os empregos perdidos na pandemia, ainda temos uma taxa elevada de desocupação, tanto comparado a outros países quanto comparado ao histórico brasileiro.


Pelo menos, o rendimento médio do trabalhador assalariado mostrou uma pequena melhora de 4%, com o rendimento médio passando de cerca de R$2449, para R$2548. O último indicador que gostaria de analisar é de utilização da capacidade instalada, para termos um cheiro de quanto espaço o setor privado tem para crescer no Brasil sem ter que investir muito em expansões.

Utilização da Capacidade Instalada. Fonte: Sistema Gerenciador de Séries do Banco do Brasil.


Em relação a leitura do último post, tivemos uma retração na utilização da capacidade instalada, mas ainda estamos em níveis pré-pandemia. Com cerca de 80% da capacidade instalada em utilização, existe um espaço para que empresas cresçam com pouco capital, o que é bom agora com a Selic em alta.


Ainda, temos uma situação mundial que pode atrapalhar um pouco o Brasil: o FED está finalmente subindo juros nos EUA, diminuindo o spread entre as taxas básicas americanas e brasileiras, o que, definitivamente, vai impactar negativamente o câmbio brasileiro, podendo inclusive espirrar em mais inflação. Sem contar as políticas de COVID Zero na China que estão levando a lockdowns praticamente totalitários e a constante interrupção de oferta, demanda e cadeias logísticas. E, já que a China é "apenas" a segunda maior economia do mundo, uma desaceleração da China é praticamente uma desaceleração mundial, o que também impacta negativamente o Brasil.


Parte 4: Movimentações e Conclusão


Temos, proveniente de dividendos e proventos de FIIs, Ações e ETFs, R$155,79 que poderão ser aplicados em algum lugar da carteira, ou até mesmo um produto novo. Essa carteira teórica tem hoje 36% da alocação em Ações/ETFs, 33% em renda fixa pós fixada, 19% em FII e 11% da carteira em caixa (tesouro selic) e 1% prefixada.


Dado que ao longo do ano ainda teremos mais algumas elevações da Selic (projetada pelo boletim Focus para fechar o ano em 13%), creio que a ação mais prudente, nesse momento, seria utilizar esses R$155,79 para comprar mais uma cota do DEVA11, à um preço de R$97,20, com o objetivo de reforçar a geração de caixa carteira, e aguardar mais alguns meses antes de liquidar o tesouro selic e aportar em bolsa. O restante ficará "em caixa", porém desaplicado do Tesouro Selic, pois a compra mínima nas taxas atuais está em torno de R$113 por título pós-fixado.


Assim, nossa carteira na terceira edição dessa série é a seguinte:


Antes de encerrar, gostaria de tecer um comentário sobre qual a mentalidade que tenho sobre esses investimentos e o porquê dela ser diferenciada. Gosto de pensar na economia de um país como um cargueiro transatlântico: é grande, complexo, com várias pessoas trabalhando nele e fora dele, e, uma vez que ele está em movimento, é extremamente difícil mudar a direção dele (todo mundo ja viu vídeo de navios desgovernados).


A economia brasileira estava numa direção de inflação desenfreada e descontrole fiscal severo, mas parece que o BCB fez a lição de casa e está aos poucos dando mais confiança de que vai fazer o necessário para segurar inflação, mas, como é ano de eleição, não temos nenhuma visibilidade de que o Governo vai manter-se responsável financeiramente. Assim, eu fico reticente de aumentar a exposição em bolsa neste exato momento, pois, apesar do capitão do barco (estou mantendo a analogia anterior e não exaltando uma certa figura pública) estar tentando mudar a direção, a margem das docas está cada vez mais perto e a colisão parece cada vez mais inevitável. Felizmente, o mercado parece já ter precificado uma colisão, mas ainda parece não estar certo acerca do impacto que isso terá no navio. Será que ele vai precisar apenas de uma demão de tinta? Um reparo de uma pequena avaria? Ou será que ele vai rasgar toda a lateral e precisar ser mandado para o feero velho? Só saberemos as respostas para essas questões com o tempo.


Mas no meio tempo, aproveite para estudar o mercado e continuar fazendo caixa. Boas oportunidades vem para aqueles que esperam, e para aqueles que tem dinheiro para aproveitá-las.


Por essa edição do Surfando a Onda, é isso!


Um abraço, e até a próxima!


Pedro

 
 
 

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